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Análise

CD Moderno à moda antiga
(Marcela Tais)

Tiago Abreu em 11/09/2015
Para o Super Gospel
Moderno à moda antiga

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Faixas:
1. Ame Mais, Julgue Menos
2. Moderno a Moda Antiga
3. Muita Calma Nessa Alma
4. Risco (part. Salomão do Reggae)
5. Quando é Amor
6. Sou Diferente
7. Voar
8. Partir
9. Naufrágio
10. Homem de Verdade
11. Conselho de Amiga
12. Espera por Mim
13. Pequenas alegrias
O ano de 2014 foi um reboliço político dos grandes. Desde 1989, a primeira eleição após o fim da ditadura militar, a polarização política nunca foi tão acentuada. Como cereja do bolo, lideranças evangélicas se levantaram e defenderam certas bandeiras, se colocando como representantes da tão plural camada cristã protestante. Bastou apenas isso para iniciar um verdadeiro embate entre os pertencentes da chamada “ditadura gayzista”, os chamados destruidores da família e o grupo do “fundamentalismo evangélico”, chamados de retrógrados, ou o que mais você se lembrar. Foi um momento vergonhoso, repleto de adjetivos, ofensas baixíssimas e nenhum diálogo sério.

O meio gospel, em contrapartida, permaneceu da mesma forma de sempre: apolítico e hermético. Algumas declarações de músicos, como Marcela Taís, até mostraram certo engajamento e posicionamento ideológico, mas nenhuma obra verbalizava todo este contexto, de fato interessante, na história do país. No entanto, Moderno à Moda Antiga, novo trabalho de Marcela, faz esta função.

Cabelo Solto, seu antecessor trabalho, foi um disco composto por músicas leves, totalmente poéticas, valorizando, principalmente o entrosamento das letras de Marcela aos arranjos suaves do produtor Pingo. Agora, em seu novo trabalho, tudo foi desfeito: a parceria, a proposta suave, dando lugar a uma Marcela mais pop e liricamente mais direta. Se esta é superior a anterior, é muito cedo de dizer e só o tempo nos dirá. Mas o seu trabalho – ovacionado pelo público – possui alguns detalhes que podem passar despercebidos pelo ouvinte desatento.

Conceitualmente, as poesias de Marcela estão mais carregadas. Parte do repertório, como Risco, nos remete a elementos do disco anterior, bem desenvolvidos: “Viver é um risco que risca a vida, que você não arrisca / Minha vó dizia coloca o medo do debaixo do braço e siga / Buraco escuro, a fé é isso / Você se joga, deixa com Deus o impossível”. É exatamente nestes momentos em que o álbum se entrega a algo mais despojado, reflexivo, e que se achega exatamente ao anseio da juventude como um todo.

Em contrapartida, Moderno à Moda Antiga, em seu outro lado, possui uma essência menos digerível, e claro, anticomercial. Mesmo que defender ideias tradicionais seja algo bastante aceito por diversos segmentos evangélicos, cantá-los é um desafio enorme, um ato de coragem, para um meio gospel que praticamente nunca se arrisca e praticamente não defende ideias, nem mesmo pela defesa do mérito artístico, o qual a música, obrigatoriamente, deve ter.

O repertório, que conta com a participação de Paulo César Baruk (Sou Diferente) Anayle Sullivan (Conselho de amiga) e Salomão do Reggae (Risco), traz várias surpresas como um blues (Naufrágio), piano e voz (Voar) além de um rock vintage romântico (Quando é amor). Destaque para a diversidade de instrumentos com muitas guitarras (Felipe Vianna), violinos à vera (Sinfônica de Belém), banjo (Serginho Knust) e diversos elementos percussivos. O primeiro single, Ame mais, julgue menos, possui um consistente discurso acerca das realidades vividas pelos seres humanos e pela incapacidade, por vezes, de nos entendermos. Outro destaque fica por conta do projeto gráfico idealizado pela própria cantora em parceria com a e-levecomunica que, entre várias novidades, criou um logotipo para cada canção. A mixagem foi realizada por Jordan Macedo.

Musicalmente, creio que é o primeiro acerto do produtor musical Michael Sullivan dentro no gospel. Seus trabalhos, principalmente com a gravadora Graça Music, encheram a assinatura deste trabalho de incertezas. Mas, ao ser lançado, a qualidade dos arranjos e construções melódicas, criados em co-parceria com a cantora, foi perceptível. Toda a sonoridade, juntamente com o discurso contido no projeto, colaborou para as evidentes mudanças nas interpretações vocais de Marcela em relação ao seu primeiro trabalho.

Portanto, mesmo com discordâncias ideológicas ou não, qualquer pessoa sensata pode reconhecer que o segundo trabalho de Marcela Taís é um ato de coragem que deveria ser seguido. Há muito tempo que a música dita gospel deveria falar algo a mais do que diz, transmitir ideias, mas soa, no geral, muito vazia de conteúdo. Como seu segundo projeto, mostra que a cantora deseja ser além de uma intérprete, mas uma voz de referência para mulheres jovens de todo o país.

Nota: ★★★☆☆


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