Análises

CD O Encontro (Davi Sacer e Trazendo a Arca) - Análise

Celebração viva da amizade em tempos de morte, O Encontro é uma mistura inseparável de Trazendo a Arca com Sacer

Tiago Abreu em 03/08/20 502 visualizações

O Encontro, primeiro álbum do Trazendo a Arca após Habito no Abrigo (2015) e o sucessor de 15 Anos (2019), de Davi Sacer, chegou a nós em um dos momentos mais tensos da pandemia de Covid-19. Um reencontro tão aguardado em um período delicado da humanidade é simbólico porque, ao longo da obra, nos faz relembrar com romantismo um período menos caótico da vida mas, por outro lado, que se materializa de forma particular no presente.

Apesar de ser creditado como Davi Sacer & Trazendo a Arca, é difícil marcar fronteiras entre o que é Sacer e o que é sua ex-banda. Com exceção da parte técnica – composta pela excelente e discreta mix e master de André e Gustavo Cavalcante, colaboradores frequentes de Sacer – O Encontro é, via de regra, o registro sucessor da formação original do Trazendo a Arca, interrompida após Salmos e Cânticos Espirituais (2009). O produtor e ex-tecladista Ronald Fonseca também se faz presente, além de Verônica Sacer.

Embora lives tenham fortalecido uma nostalgia frequente dos últimos anos, Trazendo a Arca e Davi Sacer sempre foram alimentados pelo sentimento de legado como a banda que deu uma visão humana ao cenário congregacional. No entanto, pelo contexto impeditivo da pandemia, o registro carrega pouca ambição. O grupo apresenta seus números sem grandes mudanças, e sem a possibilidade de um ensaio. É justo questionar sobre a ausência de qualquer música do álbum Deus de Promessas (2005), sobretudo pelo fato de “Bendito Eu Serei” ter tido uma das melhores performances durante a apresentação online, mas o projeto não comete graves deslizes.

Por isso, o que poderia ser apresentado como novo se fez. De forma inédita, Davi Sacer e Luiz Arcanjo dividem juntos os vocais em quase todas as músicas, exceto em momentos estratégicos. Não dá para imaginar Lembra Senhor sem a intensidade de Luiz Arcanjo e Sobre as Águas sem o timbre de Davi Sacer. Mas, frequentemente, as duas vozes se alternam em um jogo esperto e envolvente. Nenhuma canção é mais propícia para isso do que Mais, melhor regravação de todo o registro, um entrosamento perfeito entre banda e voz.

As escolhas musicais também fugiram do comum. Seria arriscado pensar em um trabalho bom sem “Restitui”, “Deus de Promessas” e “Olha pra Mim”, mas a banda conseguiu. O êxito também se deve ao fato de evitarem trazer qualquer canção regravada no recente 15 Anos e, assim, evitar comparações. Por outro lado, há escolhas inesperadas, como Aleluia, Hosana e Leva-Me Além. Apesar da maior parte do repertório estar concentrado até 2007, trazer três faixas de Pra Tocar no Manto (2009), o qual nunca recebeu uma versão audiovisual da formação clássica, foi estrategicamente eficaz. Invoca-me, por exemplo, tem a mesma proficiência da versão de Live in Orlando (2011), mas Caminho de Milagres faz um percurso novo com a mistura do arranjo antes destinado ao álbum Marca da Promessa com o de Pra Tocar no Manto.

Mesmo que tecnicamente tudo esteja bem, os efeitos do tempo foram desiguais para os integrantes. Luiz Arcanjo foi o mais prejudicado – maior parte dos seus vocais foram regravados e o excesso de efeitos em um dos trechos de Senhor e Rei tirou a naturalidade de sua voz – enquanto Davi Sacer conseguiu cantar canções difíceis como Não Vou Desistir com facilidade. A seção instrumental está mais uniforme. Ronald continua a oferecer uma mistura incomum de ordem e criatividade, enquanto Deco Rodrigues é elegante e disciplinado, características fundamentais para acompanhar com eficiência um baterista tão atípico quanto André Mattos. O trio formado por Márcio André, Angelo Torres e Marcos Bonfim fornece um vínculo sincero com o DVD Ao Vivo no Maracanãzinho (2008), época em que a seção de metais sustentou Trazendo a Arca e O Chão Vai Tremer.

Ainda que seja difícil (e até irrelevante) quantificar o quanto cada integrante contribuiu para o sucesso do Trazendo a Arca, é indiscutível a existência de elementos muito particulares em sua música. As formas melódicas que Ronald Fonseca e Deco Rodrigues constituíram alguns de seus principais sucessos e a voz incansável de Davi Sacer são características de percepções imediatas. Mas Luiz Arcanjo carrega uma sensibilidade ímpar como compositor, cujo estilo resulta em canções como Abro Mão, caracterizada por versos duros e inimitáveis como “eu estou disposto a morrer por Ti”. Só um letrista pouco convencional no cenário congregacional como Arcanjo conseguiria transformar um refrão com “e ainda que a dor me diga que não” do pop rock Serás Sempre Deus em clássico instantâneo, e com a sua direção criativa, fazer com que uma faixa de contexto bíblico tão tenso como Entre a Fé e a Razão fosse traduzida em uma poesia afável. A mistura dos quatro elementos tem, como maior resultante, Senhor e Rei, melhor canção de toda a carreira da banda.

A faixa-título do álbum de 2010, com os vocais de Davi e Verônica Sacer, faz pensar como seria o Trazendo a Arca se tivesse mantido sua formação original, da mesma forma ao pensar o resultado de Na Casa dos Profetas (2012), que poderia ter se feito presente para valorizar as guitarras de Isaac Ramos, com a produção de Ronald. Uma década se passou, e esses sete músicos se veem marcados, pelo resto da vida, por canções que escreveram durante certo período de suas trajetórias. Luiz Arcanjo, satisfeito, encerrou Marca da Promessa com agradecimentos, talvez com o significado mais correto de um álbum como O Encontro: materialidade de uma amizade que sentiu conjuntamente a pobreza, o sucesso, processos judiciais, o envelhecimento e, ao mesmo tempo, uma paixão musical que permanece viva durante uma pandemia que, de forma contraditória, reforça a morte.

Ficha técnica: Luiz Arcanjo, Davi Sacer e Verônica Sacer (voz), Ronald Fonseca (teclado), Deco Rodrigues (baixo), Isaac Ramos (guitarra) e André Mattos (bateria). André Cavalcante e Gustavo Cavalcante (mixagem e masterização). Equipe de design Som Livre (projeto gráfico).

Avaliação: ★★★★☆

O Encontro

(Álbum) 07/20


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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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