Análises

Ouvimos o novo álbum do Ao Cubo - Fôlego. Confira nossa crítica

Tiago Abreu em 31/10/16 1998 visualizações
Quando Feijão e Cleber se dispõem a traçar justificativas para suas decisões artísticas em Meu Chamado, percebe-se como o Ao Cubo, no álbum Fôlego, liberado nas plataformas digitais na última sexta, patina em seus próprios devaneios. A oitava canção deste disco que traça recortes sonoros ricos seus samples, é um grito pela liberdade, mas também é uma declaração que exala medo.

Ao Cubo nunca foi uma banda defensiva. Para aqueles que conhecem os versos certeiros de Respire Fundo (2004) e as reflexões duras e angustiadas de Entre o Desespero e a Esperança (2007), sabe que os rappers, juntamente com Dona Kelly e Fjay, tocavam nas feridas e surpreendiam. O grupo assimilou bem mudanças e ainda fez um bom trabalho com Um por Todos (2009), disco que reconhece o passado dos paulistas e mostra que, no rap, há muito mais para dizer além da violência cotidiana e dos problemas sociais.

Mas a banda, em 2016, não sabe o para onde quer ir. O clima de comemorações, reconhecimento e glória do álbum Década (2014) parece ter ressoado mal no novo trabalho. Afinal, há repetições exaustivas, refrões previsíveis, autovangloriação, ao mesmo passo que o grupo admite, ainda na abertura de Largado no Sofá, que os tempos são difíceis. E, em uma atualidade complicada, há muito mais para se dizer.

Eles podem, como dizem em Meu Chamado, ser pop, gospel ou gangsta. Mas, em nenhuma de suas faces, o álbum se fortalece. Na verdade, o ponto mais positivo do disco é justamente a produção musical de Fjay, que traz misturas agradáveis de rap, R&B, funk e pop. Mas faltam letras. Dona Kelly faz o possível. Quando canta em Palmas, você esquece que toda a construção lírica é uma continuação cíclica da faixa anterior. E, entre males narrativos, o disco tenta se desenvolver. Afinal, o ritmo é fácil (Fôlego), mas o movimento é redundante.

As participações de Fôlego salvam o trabalho de seu marasmo. Péricles, entre os metais e graves de Tudo Nosso, é o ponto alto do disco. Pela Rua / Pelo Reino faz continuação de "Um por Todos" e se salva justamente pelas rimas externas de músicos como Matheus Bird e Kivitz, o rapper evangélico de maior relevância artística da década. E Ton Carfi, em Liberdade, dá o feeling necessário para a história dramática contada.

É até estranho constar que a maioria das faixas relevantes de Fôlego estão na segunda parte do disco. E mesmo nestas faixas, o Ao Cubo repete fórmulas. Saudade é aquela faixa melancólica e bela que o grupo sabe fazer como ninguém. Porém, ao mesmo tempo, percebe-se que os versos são reciclagem de sucessos como "Filhos" e, até mesmo, "Mil Desculpas". O Ao Cubo de 2016, cansado, parece ter dito tudo nos projetos antecessores e, no novo álbum, contenta em ser cover de si mesmo.

Os membros do Ao Cubo sabem o que os levaram até aqui. O chamado, claramente, foi declamado em toda uma canção. Agora, basta a banda sair da posição de defesa e medo. De recuperar o seu fôlego e se libertar, de fato, dos próprios limites criativos para sua arte. Por enquanto, a máxima "daqui só saio morto" precisa de maior fundamentação.

Nota: ★★☆☆
Fôlego

(CD) 01/16


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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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