Análises

Relembramos um dos clássicos do Rebanhão - Luz do Mundo. Confira nossa análise retrospectiva

Thiago Junio em 24/12/18 1288 visualizações

Luz do Mundo

(CD) 01/83


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Luz do Mundo, o segundo álbum da banda carioca Rebanhão, deu seguimento a qualidade artística demonstrada por meio de Mais Doce que o Mel (1981). Lançada em 1983, a obra prova que o grupo conseguiu novamente reunir a musicalidade brasileira, da MPB, do rock progressivo, do blues e da música nordestina, num conjunto de dez canções.

Fato é que o primeiro disco é a melhor produção do Rebanhão de sempre, porém Luz do Mundo junta-se certamente aos clássicos da banda, principalmente porque os dois álbuns se assomam, em qualidade estética, sonora e de conteúdo, em relação aos demais. Isso não desmerece a criatividade dos demais músicos do grupo, pois as composições do tal sempre foram bastante coletivas, todavia a influência do vocalista e fundador da banda, Janires, era determinante. Isso se faz presente na ousadia demarcada pelas referências culturais e musicais, traço do cérebro do vocalista.

O projeto gráfico também é uma espécie de resposta às críticas enfrentadas no primeiro trabalho, cujas edições foram modificadas pela gravadora para que o peitoral do vocalista, com camisa aberta, não aparecesse. No encarte, Janires posa em foto juntamente ao grupo vestido de gravata borboleta, uma sátira observada pela distinção clara ao seu estilo simples e economicamente desapegado, alvo de polêmica na capa de Mais Doce que o Mel. Os mesmos diálogos são claros no repertório, como a regravação de Taças de Cristais, presente no cassete de 1979 de Janires, e que desta vez se destaca com um arranjo progressivo.

Cada canção do projeto conta com uma assinatura individual, algo desenvolvido no registro anterior, e aqui com um trabalho instrumental igualmente apurado. Luz do Mundo, faixa-titulo, abre o disco, e, aqui, Pedro Braconnot se sobressai nos teclados numa típica composição pop rock de Carlinhos Felix – autor ainda representado na alegre Sinal Verde e em Jesus Meu Refúgio, com influência nordestina. Não é só Carlinhos que puxa a banda para seu lado mais pop, Braconnot também faz de Com Cristo em Mim uma experiência quase dançante, com slaps de Paulo Marotta.

Se Marotta antes esteve limitado ao baixo, sua estreia vocal marca Hoje Sou Feliz, uma das melhores da banda. Uma clássica MPB, o violão, em dedilhado, assume a direção da canção, com acréscimos leves de teclado, para que ela não perca sua intenção quase acústica e abrasileirada; para complementar o seu recheio, a canção é um excerto da riqueza instrumental presente no álbum, no qual estão presentes violão, ovation e craviola, remetendo ao próprio chorinho. A letra se destaca pela genialidade de Janires, em abordagens a problemas do país, críticas sociais e até referências culturais da época, como Flash Gordon e Robin Hood, e a antítese que a fé cristã traz.

Janires demonstrava bem algumas bases em suas composições. UAI (Unidos no Arrebatamento da Igreja), na composição da ideia, está ligada ao dispensacionalismo, algo também presente em Casa no Céu, um blues rock, ou melhor, um clássico rockabilly irônico e bem humorado acerca discrepância entre a realidade da eternidade e os problemas do Brasil em regime militar. Em 1983, Rebanhão já era um fenômeno que transcendia o meio evangélico, e isso se deve pelas expressões do grupo que iam desde aspectos musicais a pontos estéticos e desaguavam no poder de contextualização social de suas canções.

Anos 2000 é muito clara sobre como Rebanhão trabalhava fenômenos e temas populares para composições curiosas. A música apresenta um Janires observador dos fenômenos da guerra fria sob lentes escatológicas. A faixa de efeitos experimentais, ao estilo de bandas 60-70 como The Beatles e Pink Floyd, evoca a incerteza que a geração em questão já tinha da virada do século, com tantas transformações culturais e bélicas de um século XX agitado. Carlinhos Felix também põe as mesmas capacidades em De que Adianta, mesmo em seu estilo mais suave, em um arranjo com influências da bossa nova e do jazz.

O álbum, gravado nos estúdios Transamérica, mais importante espaço de gravação do país à época, contou com master em Boston, um currículo que poucos discos evangélicos, por muito tempo, ostentaram. Finalizou também o envolvimento do saudoso Janires na banda; a banda conseguiu se reestruturar após a sua saída, embora o seu envolvimento demarcou um dos períodos mais memoráveis e impressionantes da história da música evangélica. O vinil e cassete Luz do Mundo foi relançado em CD com diferentes projetos gráficos ao longo dos anos com tiragens limitadas, e posto pela própria banda em 2018, 35 anos depois do lançamento, à venda em seu site.

Avaliação: 4,5/5

Colaboração e revisão: Tiago Abreu

Luz do Mundo

(CD) 01/83


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