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Os caminhos e desafios do novo movimento

Tiago Abreu em 25/03/2016
Para o Super Gospel

Com riffs de guitarra e observações do cotidiano e da vida humana, bandas no Brasil inteiro questionam a dicotomia da música religiosa brasileira

Há mais de dez anos, os rumos da música cristã contemporânea brasileira soavam cada vez mais previsíveis. As bandas de rock que ajudaram a construir o famigerado movimento gospel na década de 1990 perdiam a popularidade frente à explosão congregacional. O rock brasileiro, como um todo, vivenciava o mesmo processo de descentralização das gravadoras. No entanto, a força da internet e novas alternativas de produção musical impulsionaram o crescimento da música independente por todo o país. Foi desta forma que, na música cristã nacional, passaram a se destacar bandas de black music, rap e outros gêneros de extremo nicho. O rock também se beneficiou disso.

Foi em junho de 2004 que saiu o primeiro trabalho da banda Aeroilis, que estava ativa desde 2001. Referências ao britpop contemporâneo à época, característico de bandas como Travis em The Man Who (1999) e até mesmo o Manic Street Preachers na fase de This Is My Truth Tell Me Yours (1998), se tornou vanguarda em diversos aspectos. O álbum Aeroilis foi uma produção totalmente independente, desde os processos de composição, gravação, produção musical e distribuição. A musicalidade se contrapunha às influências datadas do hard rock e heavy metal oitentistas tão exploradas pela geração "rock gospel". Mas a melancolia e introspecção de várias das letras chamaram a atenção para uma efervescência musical emergente que começava ali. Por vezes chamado de novo movimento, crossover ou até mesmo pós-movimento gospel, há mais de dez anos grupos e músicos diretamente ou indiretamente ligados ao rock ditam uma linguagem e discurso que definitivamente destoa do evangeliquês na música cristã brasileira.

O que é o novo movimento?

Raphael Campos, vocalista da Aeroilis, em um show de 2003. Imagem: Fotolog Aeroilis

O termo novo movimento surgiu entre uma conversa do baterista e principal letrista da Aeroilis, Arvid Auras, com o vocalista da Tanlan, Fábio Sampaio. Mas, na visão dos integrantes da banda gaúcha, o termo não tem um conceito exato, mas a criação de um comum ambiente conceitual para bandas e músicos que estivessem fazendo música em propostas semelhantes a eles. "Queríamos fazer uma arte arraigada em princípios cristãos mas que se comunicasse de forma efetiva com o mundo “secular”. Isso se daria por uma visão de que na verdade essa dicotomia “secular/sagrado” é artificial, não-bíblica, uma herança pós renascentista arraigada na cultura brasileira fruto da herança católica", disseram.

Na observação deles, esta dicotomia é um problema de conexão com a realidade que faz com que não-cristãos simplesmente não sejam alcançados pela arte cristã. "Com suas narrativas bíblicas e sua estética de gueto, essa produção musical pouco ou nada afeta a vida de milhões de brasileiros, que simplesmente a ignoram enquanto produto de consumo. Não é uma arte relevante e que faz a diferença". Com esta inquietação, o quarteto lançou seu primeiro EP em 2005, com quatro faixas. O álbum Tudo que eu Queria só foi distribuído em 2008. Hoje, eles estão na Sony Music Brasil e preparam o terceiro projeto da carreira.

Enquanto os integrantes da Tanlan preparavam um lançamento, a Aeroilis chamava a atenção da gravadora Bompastor, que propôs distribuir o primeiro álbum com a inclusão de duas novas músicas, também produzidas pelo vocalista, tecladista e guitarrista Raphael Campos (foto, em um show de 2003). A banda se apresentou em vários locais do Brasil, como as capitais Florianópolis e Goiânia, além de cidades interioranas. Juntamente com outras bandas como a amazonense Metamorphus, abriram shows do Resgate e Oficina G3 e alguns eventos com grupos novos. O álbum Nada Mais Além foi lançado em 2010. A Aeroilis seguiu ativa até 2013.

Ainda nos anos 2000, outros conjuntos com propostas semelhantes surgiram, como a Crombie no Rio de Janeiro (porém, mais circunscrita ao universo da MPB), a Hibernia em Maceió, e Os Oitavos em Caxias do Sul. Em 2008, o Palavrantiga lançava seu primeiro EP em Belo Horizonte. As origens do grupo remetem às mesmas influências britânicas de outros grupos do novo movimento, mas curiosamente, como banda de apoio de Heloisa Rosa, cantora que determinou novos moldes de música com teor congregacional no país, assim como os irmãos capixabas Lucas Souza e Lúcio Souza, o SILVA. Hoje, os dois músicos se destacam na cena pop-MPB.

O Palavrantiga foi uma das mais populares bandas do novo movimento. Hoje, o ex-vocalista e compositor Marcos Almeida segue em carreira solo. Foto: Divulgação

Os Oitavos surgiram em 2009, após projetos paralelos que existiam desde 2003. Ricardo Dini, baterista da banda, também falou da visão do grupo gaúcho sobre o chamado novo movimento. "Não sei se existe um novo movimento em definitivo. No Brasil o que vemos são expressões isoladas, ainda pouco compreendidas e com abrangência/alcance limitado. Há bandas atuando, com certeza, e isso já pode ser considerado um movimento, mas não há uma integração nacional coordenada". Assim, o músico explica. "O que entendemos como "novo movimento" são bandas formadas por membros cristãos, com valores cristãos, que não falam ou escrevem apenas sobre temas religiosos, mas compõe sobre a vida como um todo, sem a separação entre secular e sagrado. São bandas que tocam em qualquer lugar, como bares, festivais, eventos, igrejas, etc. Entendemos que uma banda não pode ser cristã, um objeto não pode ser cristão. Cristãos são os indivíduos que formam a banda".

A catarinense Quarto Fechado lançou seu primeiro EP em 2012 e o primeiro álbum em novembro deste ano. O vocalista e um dos guitarristas do grupo, Helon, foi baixista da Aeroilis por cerca de um ano. Elton Ribeiro, baterista do quarteto, também traçou suas reflexões acerca do novo movimento. "Sendo sincero, a gente não conhece muito bem o que é e de onde surgiu. Desde o começo da banda, buscamos fugir de rótulos. Uma galera que gosta da Quarto Fechado diz que fazemos parte desse novo movimento, então esperamos que seja algo bom (risos)".

Na cena independente do Rio de Janeiro, a Memora partilha da mesma visão e discurso destas bandas. O guitarrista e um dos vocalistas do grupo, Rod Xavier, traçou uma reflexão abrangente. "Do nosso ponto de vista é impreciso definir um movimento e sua proporção relevante a partir de ideais que dão norte ao nosso trabalho. Há diversos artistas brasileiros como nós, que falam de temas como a fé cristã objetiva e subjetivamente fazendo entretenimento além da liturgia, em todos os tipos de palcos possíveis. Determinar com precisão quem representa um movimento e qual seria a sua cartilha de objetivos, por outro lado, ainda poderia ser cedo pra conseguir". O cantor Beto Folk, também do Rio, acrescenta: "O novo sempre existiu. A gente vê pessoas talentosas em vários lugares, mas nunca tiveram a oportunidade de expor pra massa seus talentos, suas ideias reais. Hoje o movimento está forte devido à internet e isso tem gerado na mente das pessoas que é algo novo, mas na real o novo sempre esteve aí".

"O novo sempre esteve aí"

Quando Beto Folk diz sobre a existência do novo, se refere a um passado distante das bandas de rock alternativo existentes no movimento. Ele remete, por exemplo, nomes como Rebanhão e Fruto Sagrado que, mesmo pertencendo a outros paradigmas, contribuíram para uma visão que culmina hoje. "Conhecer Rebanhão de Janires, Fruto Sagrado com sua linguagem que até hoje pra mim é muito relevante e várias outras bandas que me ajudaram a pensar no evangelho de forma mais humana, sempre será uma visão positiva viva dentro de mim". Quando Marcos Almeida evoca Keith Green na popular música "Rookmaaker", chama uma das influências de Janires. Capixaba, ele foi uma das figuras mais curiosas e enigmáticas da música cristã brasileira dos anos 1970 e 1980. O músico foi um dos primeiros a tratar de cristianismo de forma contextualizada e crítica, e possui admiradores e influenciados mesmo após sua morte num trágico acidente automobilístico em janeiro de 1988.

Rebanhão e Fruto Sagrado, mesmo fundados em épocas distintas (1979 e 1988), ajudaram a construir o movimento gospel iniciado em 1990. Questionados se o movimento gospel foi algo benéfico ou maléfico para a produção de música cristã no país, os integrantes da Tanlan foram bastante cautelosos e fizeram uma análise das mudanças no perfil do evangélico ocorridas nas duas últimas décadas do século XX. "O movimento gospel foi vítima de tudo que se massifica. No início foi super benéfico e inovador, mas com o passar dos anos, e o crescimento do mercado, valores antes imprescindíveis foram perdendo espaço para questões mercadológicas. Entretanto, não culpamos as gravadoras e o mercado, especificamente, por isso".

Por conta disso, o grupo apresenta outro 'culpado' para o fenômeno, e encontram no "tipo de igreja evangélica que cresceu no Brasil". "Quando igrejas com teologias tão doentes e duvidosas crescem tanto no país, não é de se espantar que a música consumida por essa massa seja de tão péssima qualidade. Por isso só se fala de 'vitória, vou conquistar, vou isso e vou aquilo', onde Deus vai me ajudar a conquistar o que EU quero. A música que enfatiza esse tipo de discurso é a que vende hoje no Brasil, porque é só essa a teologia que cresce aqui", afirmam.

Rebanhão, juntamente com Janires, em uma apresentação em 1985. Foto: Pedro Braconnot

Na última edição da Festa Nacional da Música, ocorrida no Rio Grande do Sul, Fábio Sampaio fez críticas a uma prática de cópia estética na música cristã nacional através de uma pergunta a membros de uma mesa-redonda. Leonardo Gonçalves, respondendo-o, discordou das palavras do frontman. "Acreditamos que na condição de artistas, temos a obrigação de sermos responsáveis com o que cantamos e produzimos. A infância da música evangélica surgida nas décadas de 70 e 80, deu espaço para a adolescência nos anos 90, e acredito estarmos vivendo um amadurecimento natural dela. Tanto como mercado, quanto como movimento cultural. Dito isso, acreditamos que a música produzida por cristãos deveria se preocupar em ser criativa e original. Não precisamos mais "copiar" os sucessos do mercado dito secular, para vender nossa música. Essa prática muito comum nos anos 80 e 90, com bandas que eram mimetismos vergonhosos de grandes nomes do mercado secular, não se justifica mais em nossos dias. Temos meios, cultura e condições técnicas suficientes para criarmos nossas próprias estéticas e conceitos dentro do segmento que quisermos", enfatiza Fábio Sampaio.

Ricardo Dini também destaca que os aspectos positivos e negativos dependem do ponto de vista. "Oficina G3 e Resgate, por exemplo, conseguiram introduzir o rock para o público evangélico, isso já é um grande passo, considerando que nem bateria entrava nas igrejas. Então foi super importante sim, por quebrar a barreira dos gêneros musicais. A partir daquele momento os crentes poderiam ouvir todos os estilos, mas só se falassem de Jesus. E isso, infelizmente, ainda não avançou. O universo gospel brasileiro ainda está nessa mesma página. Só é permitido consumir músicas que falem de Jesus. Pode ser a maior asneira ou heresia, mas se falar de Jesus, está liberado. É uma pena. Assim as bandas gospel não conseguem ser relevantes para o mundo, a não ser em contextos isolados, como os músicos do Oficina G3 que são reconhecidos pela sua qualidade técnica, mas não pelas músicas em si", lamentou.

Rod Xavier utiliza fatos e figuras históricas para embasar sua tese. "Olha, se há uma única coisa não benéfica rolando, é gente fazendo música ruim! Ray Charles foi um dos primeiros artistas "crossovers" de proeminência, no caso dele unindo letras da irreverência das ruas à sonoridade gospel de sua época. Há quem considere na obra dele uma desconstrução do temor religioso associado àquela sonoridade peculiarmente sulista dos EUA, mas a partir dessa e de outras desconstruções a música foi perdendo rótulos raciais anos depois. Pra quem temia pelo prestígio da tradição gospel, a música gospel - e também seu significante na fé - estão aí até hoje, agora conversando desde o blues negro até uma britânica balada de rock alternativo, dessa vez com menor apego musical e sobrando mais foco na mensagem e em seu contexto. Vide também Janires, Pregador Luo e tantos outros "alternativos" no Brasil. Toda vez que o artista cristão pensou fora da caixa, embora a princípio aparentasse estar desconstruindo, no fim estava reafirmando a tradição dos costumes cristãos. A arte segue esse caminho", destacou.

Rock alternativo, regra ou tendência?

No rock norte-americano, o Switchfoot se destacou por trazer uma proposta até semelhante com as bandas do novo movimento. Grande parte das bandas assumem esta influência. Ricardo Dini vai mais além e diz que o chamado novo movimento ocorre há mais tempo na Europa e em países norte-americanos. "Switchfoot tem um trabalho reconhecido tanto por cristãos como por não cristãos. Eles são reconhecidos pela relevância da sua música, pela qualidade da sua produção artística e literária".

O músico também cita os irlandeses do U2. "O U2 não é bem aceito pela maioria evangélica, porque eles nunca foram uma banda de igreja. Sempre tocaram para o mundo, sem restrições, ao mesmo tempo em que sempre escreveram várias letras explicitamente cristãs. Acredito que o trabalho do Bono Vox contribui mais para a construção de um mundo melhor do que qualquer outro artista restrito ao meio gospel. A impressão que tenho é que, pelo fato do Bono fumar charuto, todo seu discurso e suas ações são invalidadas pelos evangélicos. Como se C.S Lewis e G.K Chesterton não fumassem cachimbo (risos)".

Dentre as bandas britânicas ativas no início da década anterior, Radiohead e Muse são influências dos Oitavos. Lançou seu primeiro trabalho em 2011, chamado Armas de Distração em Massa, focado em músicas de crítica à alienação e também temas introspectivos. Em 2014, divulgaram o clipe da música "Frases Feitas". "Fala essencialmente sobre a incapacidade de ouvir. Nos tornamos seres-farmácia, com remédio para tudo. Às vezes a pessoa só quer se abrir, compartilhar a fase punk que ela está passando, e o que ela recebe são julgamentos ou um punhado de soluções. As frases feitas como receita para a vida dos outros é uma atitude simplista e egoísta. Precisamos diminuir o ritmo nas encruzilhadas, parar para ouvir, dedicar tempo, ficar junto, dividir o fardo, ouvir as histórias para conhecermos de verdade uns aos outros. O clipe mostra também o nosso lado de engajamento político e social e a nossa relação com a cidade, o concreto, o asfalto, a poluição, o cinza, etc", diz.

Diferentemente de Os Oitavos, Beto Folk cita mais influências brasileiras, especialmente o rock dos anos 80, em seu som. O cantor fala de sua formação musical como influência direta no som que faz hoje. "Eu tive uma escola muito legal em relação a música. Desde aos 17 anos toco com bandas. Toquei sete anos com uma banda chamada Pingodagua e o som que a gente fazia era uma mistura de ritmos brasileiros como samba rock, o baião e o maracatu", explica.

O músico lançou o álbum VITALE em 2014, disponível para download grátis em seu site. Sobre a iniciativa e a música, ele diz. "Isso colabora muito para divulgação do trabalho, me ajudou a chegar a um publico que jamais imaginaria chegar. Não vejo a venda online e via streaming como algo negativo, mesmo tendo liberado o meu álbum. Acho que esses canais são mais um suporte para somar com o trabalho do artista. Alguns não tem condições de fazer uma bolacha pra venda e usa esses canais como suporte pra venda online. É aquilo: Quem pode e está afim colabora, e quem não pode, tamo junto (risos)".

Ele adianta novidades. "No início de abril vou lançar três músicas e no mesmo mês um videoclipe. Em novembro estarei lançando um novo álbum com 10 músicas que já estão sendo produzidas. Lancei uma música nova chamada Prato Velho em parceria com a Cândido, e estou atualmente trabalhando a mesma ideia com outras bandas daqui do RJ e de Sampa, vai vir muita coisa boa pra esse ano", diz, com entusiasmo.

Os integrantes da Quarto Fechado se dizem até simpáticos com bandas como Travis, mas admitem influências mais "pesadas", como o Muse, Queens of Stone Age, Foo Fighters, Kings of Leon e Manchester Orchestra. O primeiro disco da banda, Labirinto Meu, foi gravado com a co-produção de Raphael Campos, da Aeroilis e com financiamento coletivo de fãs de vários locais do país.

Sobre a produção, o vocalista Helon disse. "Já tínhamos todas as músicas desde o começo de 2014, uma boa dose dos arranjos prontos, mas nós somos muito chatos. Então, entre pré-produção, gravação, discussões, alterações na mix, correria com Catarse e finalização do disco, nós levamos cerca de 16 meses. A intenção era terminar antes, mas quando ouvimos o resultado final, ficamos satisfeitos por chegar onde queríamos. O Raphael tem uma bagagem muito bacana, sabe muito e é nosso amigo, foi bem legal tê-lo como co-produtor", afirmou.

A banda lançou o single "Vem", e mais recentemente, o clipe da música "Um Lindo Dia". O show de lançamento do álbum será dia 29 deste mês em Florianópolis, no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC).

A cena

O relacionamento das bandas com a cena musical varia conforme o local. A Quarto Fechado, de Florianópolis, faz cerca de quatro shows por ano na capital catarinense. "Aqui tem vários picos bem legais que inclusive é onde mais tocamos. Nos relacionamos muito bem com a galera, sempre estamos nos shows dos amigos, não temos tanta oportunidade como nas grandes capitais do rock alternativo, mas ter uma banda de rock independente tem suas dificuldades em qualquer lugar", disse Tg Castro, o baixista.

Também sulista, a Tanlan tem certa dificuldade em se inserir em outras regiões do país. "No início da nossa história tocávamos muito mais fora do que dentro do estado. Hoje sentimos uma certa dificuldade geográfica, principalmente, pelos valores das passagens aéreas. Nesse ponto vale ressaltar que o nosso meio repete o que acontece nos demais segmentos da produção cultural brasileira. Como diria Humberto Gessinger, do Engenheiros do Hawaii, estamos “longe demais das capitais”. Ou seja, as coisas acontecem mesmo em SP e RJ. Há muito mais público, igrejas, eventos, rádios e locais que possibilitam um desenvolvimento maior para os artistas. Bandas localizadas mais ao sudeste e centro do país tem certa "vantagem" nesse quesito. Temos convicção que se estivéssemos no sudeste os pequenos sucessos e progressos que já tivemos teriam vindo mais rapidamente", disseram os membros do grupo.

No cenário gaúcho, Os Oitavos são atuantes no cenário não-religioso. "Tocávamos bastante em bares. Hoje em dia encaramos a banda como hobby. A música é intrínseca a nós, faz parte de quem somos. Mas não vivemos disso, temos carreiras paralelas, então a rotina de shows diminui consideravelmente. Mas na época do lançamento do primeiro CD, tocamos várias vezes com os Cartolas, Apanhador Só, Pública, Vera Loca, entre outras bandas reconhecidas no cenário secular do rock gaúcho", disse o baterista Ricardo.

Helon e Paulo Ferreira, da Quarto Fechado, no Rock no Vale. Foto: Alisson Silva (página oficial do Rock no Vale)

Já a Memora e Beto Folk, no Rio de Janeiro, possuem uma experiência diferente. Beto disse: "A cena pra mim foi importante, principalmente quando saí de Brasília e voltei pro Rio, fui literalmente abraçado por pessoas que estão na mesma vibe e disposição, reencontrei velhos amigos e fiz novas amizades. A visão da cena que na verdade sempre viveu no RJ em bandas que permaneceram acreditando no seu trabalho é uma só, de que juntos somos mais fortes".

Rod Xavier concorda com a múltipla profusão de projetos na capital carioca. "A premissa que a maioria carrega é a de sair de casa pra levar música boa, pensando em quem parou de achar qualidade na rua. Uma coisa muito bacana pra gente é a experiência de falar do Amor sem que esperem algo da gente. É diferente de um culto ou show gospel, onde as pessoas já sabem que a gente está ali em nome de Deus. Lá fora a conversa é mais leve, o que nos surpreende. Um artista que divide um line com a gente ou alguém que chega pra conversar, que sacou o teor das letras curioso do que deu na gente pra cantar aquilo, é como se houvesse fé e esperança em qualquer lugar e a gente antes não percebia porque só fazia mero entretenimento no secular, ou só tocava dentro da igreja!", diz.

A Memora está prestes a lançar o seu primeiro trabalho. Em 2013, eles divulgaram um EP completo para download, mais tarde disponibilizado para audição e compra online. Em dezembro de 2014, foi lançado o clipe do single "Ela".

Embora os grupos tenham suas atividades em eventos fora do circuito religioso, sentem falta significativa de eventos alternativos entre os evangélicos. Ricardo, dos Oitavos, relembra a participação da banda no Hope Music Festival em 2012, juntamente com a Aeroilis e Tanlan. No ano seguinte, a Quarto Fechado tocou no mesmo festival. "Foi muito legal ter tocado com Aeroilis e Tanlan. Somos amigos e temos visões parecidas. Acho que somos os mais 'seculares' de todos (risos), mas compartilhamos muita coisa com essas bandas parceiras. Os festivais são muito importantes sim, porque oferecem outra alternativa aos cristãos que estão fatigados com o entretenimento gospel", diz.

Paulo Ferreira, guitarrista da Quarto Fechado, diz sobre a experiência do grupo no último Rock no Vale, cujo lineup uniu músicos e bandas como Marcos Almeida, Os Arrais e Resgate juntamente com nomes como Tiago Iorc, A Banda Mais Bonita da Cidade e Supercombo. "A gente sente falta de bons eventos, que sejam bem organizados e que com boas bandas como o Rock no Vale, independente de qual for a cena. No RNV tocaram bandas que a gente gosta, o público nos recebeu muito bem, conseguimos apresentar o som pra muita gente nova, trocar ideia com uma galera, nos divertir e voltar pra casa felizes", relembra.

Integrantes da Tanlan, Aeroilis e Os Oitavos juntos no Hope Music Festival em 2012. Foto: Gabriel Andriotti

É neste ponto que Rod Xavier vê uma carência no movimento. "Entendemos que um movimento é algo organizado, quer ativamente pelos seus atores ou reativamente pela mídia. É benéfico quando associam o Beto Folk e a Lorena Chaves num artigo, um texto do Marcos Almeida a uma música da Memora em outro num site, a internet propicia isso. Mas pelo que vemos a grande maioria dos artistas ainda não juntou frentes de trabalho com sua arte, e nem a atuação dos fãs e da mídia pró-movimento trouxe ao olhar dos produtores o valor de unir esses artistas num line de música cristã sem fronteiras ecumênicas, salvo poucas porém boas exceções como o Rock no Vale", afirma.

Críticas

O diretor do selo evangélico da Sony Music Brasil, Maurício Soares, disse, em um artigo no blog Observatório Cristão, que não acredita que o novo movimento, de fato possa acontecer numa perspectiva comercial. Ele comumente usa o termo crossover para se referir ao ato de transitar em públicos religiosos e não-religiosos.

Os integrantes da Tanlan, cujo contrato artístico com a gravadora vigora, exploraram o tema. "Acreditávamos que se todos os artistas que se identificavam com essas propostas de estética e linguagem se unissem, poderíamos criar uma cena relevante para o mercado, para a música cristã e para a cultura musical brasileira. Entendemos, porém, que somente os artistas não fazem um movimento. Quem cria movimento são curadores, produtores, rádios, divulgadores, promotores. São esses que fazem a coisa ficar de pé. Assim como a Tropicália só foi possível pelas mãos de gente como Nelson Motta e o novo rock brasileiro com André Midani (ex-Warner), Paulo Lima (Revista Trip) e Ricardo Alexandre (ex-Bizz), assim também um movimento como esse só tomaria cara de movimento mesmo se houvesse festivais, selos, sites, blogs, turnês conjuntas… O que se vê são alguns exemplos minguados aqui e acolá, como o Festival Love e o Rock no Vale, ambos produzidos pelo Rafael Diedrich, a conferência Oxigênio, em Recife, a Nuvem, em João Pessoa e o Hope Music em Porto Alegre".

Desta forma, analisam também outros aspectos. "Pensando no conceito estético, existe sim um novo movimento. Essa perspectiva lírica, estética, teológica, é com certeza uma novidade dos anos 2000 pra cá. Entretanto, infelizmente, não conseguimos gerar essa união que tanto desejávamos. Por diversas razões, cada um correu sua própria milha, pouco se importando em divulgar as outras bandas e os conceitos do "movimento" e mais interessados em criar e divulgar seus próprios conceitos", lamentaram.

"Não sabemos em que contexto o Maurício afirmou isso sobre o novo movimento, mas tendemos a concordar com ele quando vemos que não houve uma identificação natural dos artistas, que fariam parte desse movimento, entre si. Talvez não haja público consumidor no Brasil inteiro que justifique ou sustente mercadologicamente um investimento no “novo movimento”. Talvez podemos dizer que mercadologicamente ele não existe. Mas ideologicamente, existe sim", pontuaram.

Rod Xavier concorda e usa da cena independente a qual estão inseridos para traçar exemplos. "Fazemos parte de um movimento novo, porém muito expressivo de artistas na região sudeste, o #ACENAVIVE. Nesse movimento são mais de 200 bandas, fora produtores e outros rockeiros traçando estratégias contra o recente ostracismo do rock pós-cena emo/hardcore na última década, e a Memora é bem-recebida tanto pelo show pulsante que faz quanto pela mensagem cheia de boas vibes - feedback de muitos dos fãs e amigos não-cristãos que temos - em bares e casas de shows. Ainda falta alguma coisa pra que esses ideais de um movimento impulsionem de fato um novo movimento!", enfatizaram.

Memora no Festival Estação Rock. Foto: Bruno Sedano

Ricardo Dini, por sua vez, acredita que o novo movimento deve acontecer de forma fluida. "Acho que nem devem ter ações de marketing para aumentar a visibilidade do novo movimento. Esse movimento deve ser orgânico, natural. Porque ele é mais profundo... A pessoa tem que se identificar por causa dos anseios da sua alma e não porque é um novo movimento, uma moda passageira, entende? Ele não é apenas um movimento artístico, é um movimento de visão, de entendimento sobre a vida cristã, a igreja e o mundo", disse.

No entanto, a visão dos integrantes da Tanlan não é pessimista. Eles acreditam que o novo movimento tem influenciado outros artistas. "Vemos um crescimento, mesmo que tímido, de bandas e artistas que nascidos em ambientes evangélicos mais sadios, têm voltado sua produção artística para o mercado como um todo. Conceitos muito arraigados no que chamamos de novo movimento. Então, por essa ótica, acho que o movimento existe e acontece, mas não de uma maneira organizada e institucional", afirmam.

Antes do lançamento do terceiro álbum, a Tanlan já lançou três singles. Um deles foi em 2013 e dedicado especialmente para uma campanha social de natal. Em 2015, o grupo lançou a música e clipe "A Maior Aventura". A nova canção do grupo, "O que Vai Ficar", somou dez mil execuções no Spotify em cerca de quatro dias.

A banda tem usado o feedback dos fãs para finalmente produzir o novo álbum. "Todo terceiro disco - diz a lenda, é sempre o mais difícil de uma banda. Mas é o que define o artista. Afinal, ele está se afirmando a partir de dois trabalhos anteriores. Estamos trabalhando nas composições e na pré-produção das músicas. Assim como "De Onde Vem" foi determinante para a estética e sonoridade do disco Um Dia a Mais, "A Maior Aventura" surge como um possível balizador estético para o que virá. O fato é que ele será diferente de Um Dia a Mais, sem dúvida. Pretendemos lançar mais um single já em clipe antes de iniciarmos, efetivamente, as gravações do novo disco. Então, podemos adiantar que muitas novidades estão a caminho para 2016", afirmam.

Os Oitavos também estão preparando o próximo álbum. Só que os gaúchos de Caxias do Sul apostam em um ritmo mais lento de produção. "O próximo álbum será profundo e denso. Não temos a pressa do mercado musical para lançar um novo disco, porque não vivemos da música. Isso nos dá uma liberdade poética absurda. E uma legitimidade com o que queremos falar ao mundo. Demora muito porque queremos algo genuíno, transparente, que transborde de nós em forma de arte. Não pode ser algo construído matematicamente, para atender a determinada demanda", afirmou Ricardo.

"O que já escrevemos é bem forte e reflexivo. Deus nos fez seres pensantes e queremos levar as pessoas a sobrepensar as coisas da vida. Não só pelo texto, mas pela melodia, que é capaz de tocar lá no fundo das nossas entranhas. A arte nos transforma em pessoas melhores. Queremos poder proporcionar isso aos outros também. Portando o próximo CD tende a demorar, mas quando ele vier, virá tão sutil quanto paquidermes pisando em ovos (risos)", adianta.



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