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Análise

CD Vamos Viver o Amor
(Rebanhão)

Tiago Abreu em 28/02/2019
Para o Super Gospel
Vamos Viver o Amor

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Faixas:
1. Vamos Viver o Amor
2. Josué
3. Ele é a Luz
4. Meu Maior Desejo
5. Fronteiras
6. Por Isso Vem
7. Mais que um Amigo
8. Nós Te Adoramos
9. Unção
10. Brasil
Tudo se desmontou em Pé na Estrada (1991). Depois de álbuns sob o comando criativo de Janires, o trio protagonizado por Pedro Braconnot, Paulo Marotta e Carlinhos Felix esculpiu o som do Rebanhão em uma sonoridade equilibradamente pop dos anos 80. As canções, fincadas em temas sociais sob a realidade cristã do século XX, eram estruturadas com uma sagacidade brasileira cujo auge se deu em Princípio (1990). Coincidentemente, é neste disco que Braconnot alargou os horizontes instrumentais da banda, promovendo uma cosmovisão engendrada nas guitarras de Felix e no tratamento dado aos seus pianos e teclados.

Eles não eram os mesmos jovens ancorados na experiência de Janires. À altura do álbum de 1991, encaravam a vida adulta em uma década de carreira e uma gigante explosão do chamado movimento gospel. O mais cerebral projeto do Rebanhão foi liberado em meio ao início da carreira solo de Carlinhos Felix e a decisão pessoal, logo depois, de afastamento de Paulo Marotta. O distanciamento entre os três indicava que Braconnot, único remanescente da formação original, tinha a missão de reestruturar o grupo sem o mesmo contexto juvenil pós-anos 70.

A decisão gerou uma nova banda e, consequentemente, um disco que não representava a ideia radio friend dos álbuns anteriores. O compositor de "Metrô" fez Enquanto É Dia (1993) diferente em atmosfera, pautado por uma melancolia relativamente consistente. Pedro, ao lado de Pablo Chies, Wagner Carvalho, Rogério dy Castro e Dico Parente, trabalhou intensamente sob a forma das canções e suas letras. Mas mesmo com a expansão, o sucessor Por Cima dos Montes (1996) demonstrava uma preocupação muito maior com a textura musical – imbatível quando o assunto é Rebanhão – do que com as declarações. Das regravações referenciais a Janires ("Baião", "Salas de Jantar") até a saída dos novos músicos, Braconnot estava cada vez mais sozinho no processo criativo.

A desconexão artística do Rebanhão não era simplesmente uma questão interna. Vamos Viver o Amor surge exatamente num período em que a música evangélica, agora gospel, se deparou com números estratosféricos com a ascensão do pentecostal e do congregacional. A banda, que antes ditava as regras, se via empurrada numa direção lírica do louvor das igrejas. Nem mesmo a nova formação, composta por Israel Maximiliano (guitarra), Fábio de Carvalho (baixo) e Rafael Fariña (bateria), conseguiu reverter o tom datado pelo qual o álbum é caracterizado. O projeto, ao passo que define Jesus como amor em referência ao discurso de evangelismo, também lida com a crise do ideal de evangelização no final do mesmo período.

Rebanhão raramente foi uma banda que precisou se escorar em seu passado, mas o trabalho de 1999 reforça esta necessidade. A regravação de Fronteiras é uma conexão virtual ao antigo grupo, afinal nenhuma outra canção inédita do álbum consegue fornecer laços consistentes com o passado. Maximiliano é o autor de grande parte das faixas, orientadas por uma versatilidade que vai do pop rock típico do Yahoo (Ele é a Luz) até o black (Mais que Amigo), porém convencionais demais para os próprios padrões do grupo carioca. E Pedro Braconnot, em uma direção semelhante pouco conectada ao histórico do conjunto, compõe grande parte das canções do projeto.

O tecladista canta jargões incomuns para o grupo em Josué, enquanto evoca a mesma tônica pentecostal da época em Unção, dona do melhor arranjo do projeto. E embora essas assimilações internas sejam feitas conforme o seu tempo, este não é o Rebanhão que representou uma multidão de jovens nas décadas de 1980 e 1990 ao olhar para a fora da caixa evangélica. Por isso Pedro Braconnot soa inquieto e desconfortável na worship Meu Maior Desejo e na celebração Nós Te Adoramos.

Tempos depois de lançar o disco em 1999, o Rebanhão não se manteve ativo. Apesar disso, ao contrário do que se podia presumir, Vamos Viver o Amor nunca soou como um canto do cisne, ou o álbum final o qual a banda ainda pode oferecer – e o seu retorno com o ao vivo 35 (2017) prova isso claramente. No início dos anos 2000, o grupo percebeu o quão implacável o novo cenário gospel era com conjuntos originários da paixão evangelística oitentista. E mesmo diante de uma metamorfose aparentemente esperta a curto prazo, a batalha já estava perdida.

Avaliação: 2/5


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