Análises

Relembramos um dos clássicos do Complexo J - 3. Confira nossa análise

Tiago Abreu em 26/06/17 1130 visualizações
Poucos artistas e bandas entre a década de 1980 e o início da década de 1990 eram corajosos o bastante para produzir canções que iam além do discurso "evangelístico" e também questionassem o status quo e os tabus do cenário evangélico da época. Com o álbum 3, lançado em 1991, o Complexo J definitivamente entrava com poder nesse seleto hall.

Possuído por um hard rock e rock progressivo bem amalgamados, 3 acerta mais que seus anteriores – Solidão e Arte Final – na produção musical e arranjos. Apesar do disco não possuir um ponto fixo em sua sonoridade, evolui em termos de pretensão. Os teclados e sintetizadores de José Carlos são espetaculares. Eles podem soar simplistas e básicos e, ao mesmo tempo, musculosos, como em Abra Seus Olhos, que mistura crise existencial e a esperança na eternidade.

A banda não tem mensagens positivas o tempo todo, é verdade. Mas para um cenário nacional da época de devastação ambiental e crises econômicas galopantes, o discurso do Complexo J é completo e afiado em qualquer território. Choro da Natureza, uma das belas baladas do registro, combina os vocais de Liza Zagzalia, voz mais brilhante de toda a banda, e a poesia nos versos de agonia.

De baladas, o disco ainda traz Eu Quero Bem Mais e Mais que um Sonho. Esta última, em destaque, faz uma referência aos Beatles, fonte da qual parte da musicalidade do grupo bebe. O Pink Floyd, ainda, se faz presente em Consciência Limpa, que é o único ponto baixo lírico do álbum, por seus versos um tanto quanto triunfalistas.

Toda a cozinha da banda, formada por José, Martinho Luthero, Murilo Braga e Hélio Zagzalia funciona bem. O instrumental Yom Kippur e a surpreendente Ressuscitou são claros exemplos disso. Apesar da influência de grupos da década de 1960 e 1970, a produção é moderna e não carrega o tom datado dos primeiros álbuns hard de bandas da época como Oficina G3.

Essa combinação de ideias prolíficas com arranjos complexos é melhor vista em Sábado Quente, uma das obras-primas de toda a década de 1990. Ela enfoca, em seu discurso, uma crítica contundente (e atual) aos templos evangélicos: "Fazemos parte da instituição que a tudo condena pra se proteger". E apesar de ser incisiva, definitivamente contagia pela suas harmonias vocais e sua pegada pesada, mas dançante.

3, mais do que um dos melhores registros evangélicos de todos os tempos, é um universo de possibilidades de uma década geralmente encarada mais por suas iniciativas mercadológicas que artísticas, e traz o Complexo J mais impressionante e forte do que nunca. Ao mesmo tempo, a banda mostra que as canções eram tão orgânicas que, apesar da seriedade de temas e concepção artística, são totalmente harmoniosas e espontâneas. E esta combinação, geralmente, é encontrada nos melhores discos de rock.

Nota: ★★★★★
3

(CD) 10/92


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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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