Análises

Ouvimos o LP Pé na estrada, um clássico na discografia do Rebanhão. Confira nossa análise

Tiago Abreu em 09/12/13 1745 visualizações

Pé na estrada

(CD) 10/91


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Em resenhas anteriores do Rebanhão, sempre é destacável o fato da banda ter resistido com êxito, e se reinventado a cada momento da música cristã. Esta façanha, nestes dias, é bem mais difícil de alcançar. Muitos enfatizam, equivocadamente, que o grupo se perdeu logo após a saída de Janires. No entanto, a situação do Rebanhão é semelhante a de várias bandas que perdem seus mentores, mas, através disso, a criatividade dos integrantes restantes é enaltecida.

1991 foi um ano intenso para Rebanhão. No ano anterior, Tutuca, baterista do grupo desde 1985, deixa as baquetas, fazendo com que o trio Felix/Marotta/Braconnot atuasse com o músico Sérgio Batera como convidado. O interessante é que este instrumentista não vinha do nicho cristão, e, talvez, seja diretamente um fator positivo a agregar, para o bom desempenho do Rebanhão ao vivo naquela época. Além dos dez anos de existência, o grupo carioca vinha de um grande sucesso com “Palácios” – do álbum Princípio – cuja obra teve excelente execução nas rádios. A veia crítica retomada com força, entrosamento muito bom. Pedro Braconnot, que aos poucos se destacava como principal compositor iniciava uma carreira como produtor musical. Carlinhos Felix lançou, pela Continental, seu primeiro projeto solo, chamado Coisas da Vida. Esta obra, inclusive, traz a participação de Pedro nos teclados e talvez seja o seu trabalho, até hoje, mais marcante.

É neste tempo de êxitos e mudanças que Pé na Estrada é gravado. Vale salientar que este foi feito no estúdio Mega, local que tornou-se propriedade do tecladista Pedro Braconnot. Com distribuição da Gospel Records, possivelmente é o trabalho o qual possui o melhor projeto gráfico do grupo. Com o nome da banda distribuído em letras em um mapa, a obra contém dez músicas, maior parte delas autorais.

Pé na Estrada, a faixa-título, é a primeira do setlist, e também a segunda (e última) composição de Paulo Marotta na discografia do grupo. O baixista versa a vida viajante e os atrativos desta vida, em contraste a falta de alvo e sentido em nossa trilha. Como o Rebanhão nunca se limitou a um estilo, a canção mescla um reggae com a pegada pop que sempre caracterizou o trio.

Pedro Braconnot apresenta e interpreta Ovelha Ferida, que aborda a volta de alguém afastado da experiência com a fé. Musicalmente percebe-se que, mais do que nunca, a guitarra de Carlinhos Felix está bem centrada em toda a sonoridade, com seus melhores solos na carreira do conjunto. E Felix vem em Existe um Lugar, balada típica do grupo, com um refrão marcante. Ao contraste de , com sua pegada mais experimental, com destaque para os riffs do baixo de Paulo Marotta e o subsequente solo de guitarra.

Lucas Ribeiro foi um parceiro de longa data do Rebanhão. Sua participação nas composições da banda vem desde Semeador (1986). Era líder da antiga Sinal Verde, grupo pelo qual Carlinhos Felix fora baixista em 1979. De sua letra, Salvador aposta numa textura mais próxima ao movimento tropicalista, com temperos regionais, remetendo, especialmente, aos primeiros anos do Rebanhão. Tempo pra Tudo talvez seja uma das composições mais esquecidas e injustiçadas do grupo. De autoria e interpretação de Carlinhos, seu groove é marcante, e a melhor execução vai, sem dúvida, para Paulo Marotta, mostrando com fidelidade o porquê o grupo enaltece tanto o baixo elétrico.

Elmar Gueiros, ex-membro do Milad, que quase virou o guitarrista solo do Rebanhão em seu início, assina Criação, que destaca os sintetizadores de Braconnot em uma sonoridade de influência do hard rock (algo até então incomum nos repertórios). No meio da canção, um solo virtuoso do músico. Pedaço do Céu, por sua vez é uma música bem lado B, mas não chega a pesar contra o repertório.

Em Elo Perdido, Pedro Braconnot mostra o porquê foi o melhor compositor do Rebanhão da fase pós-Janires. Esta é, talvez, a sua grande obra prima. Canção mais progressiva e complexa do repertório, a faixa traz uma reflexão apurada acerca do egoísmo do ser humano e suas tentativas frustradas ao longo da história. É, de longe, a melhor música do álbum.

Entretanto, se quase tudo na vida possui seu lado ruim, Pé na Estrada não ficaria de fora com Nzile Nzulu. Ainda tento entender o porquê esta música faz parte do álbum. Totalmente desconexa com o projeto, traz a participação de Eduardo Mablaia nos vocais, mas mesmo soando como bônus, não agregou valor ao projeto.

A maturidade do trio clássico neste álbum é evidente. O que a união dos três poderia gerar os anos seguintes? Provavelmente mais discos grandiosos que, sem dúvida, seriam comentados aqui em uma resenha descritiva (ou crítica, quem sabe). Um fato, talvez negativo sobre o lançamento de Pé na Estrada é que ele nunca foi lançado em CD, apenas em vinil. Isso, pertinentemente, pode ser um bom motivo para a banda remasterizar e distribuir o disco digitalmente, não é?

No portal O Propagador, tenho uma coluna chamada Rocklogia, com reflexões e artigos sobre o rock cristão nacional e internacional. Se você quiser ler artigos sobre o Rebanhão ou outras bandas e cantores, dá uma passada por lá.
Pé na estrada

(CD) 10/91


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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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