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Confira nosso bate papo com Pregador Luo sobre novo álbum, Governe!

Tiago Abreu em 11/12/15 2037 visualizações

Pregador Luo trouxe várias novidades em 2015. Após anos como músico independente, o rapper assinou com o selo evangélico da Universal Music e lançou Governe!, considerado, pelo próprio cantor, como seu "cartão de visitas". Em entrevista ao Super Gospel, o músico falou sobre o novo trabalho, o amadurecimento em quase vinte anos de carreira, lembranças de Chorão e a situação política e econômica do Brasil.

Seu álbum Governe! tem um teor conceitual, mais crítico e político do que os projetos anteriores. Concorda que este projeto é uma “volta às origens”?

Sim, completamente. Eu acho que ele é voltado exatamente para o que o hip-hop deve ser. É crítico, contestador, mas também não fica somente neste discurso, e sim em todos que a cultura do hip-hop tem abrangido nos últimos anos. No começo, como um adepto deste estilo, enxergava o rap somente como uma forma de protesto. Depois, fui vendo que também era contestação, poesia e amor e entretenimento. No entanto, sobretudo, continuar levando adiante a palavra do evangelho de Cristo.

E como o público tem recebido este projeto?

Muitas pessoas que me acompanham e esperavam um rap mais pesado e de raiz aprovaram bastante o disco. Após um mês de lançamento ainda não vi nenhum comentário negativo. E eu gosto quando as pessoas fazem algum tipo de crítica construtiva, ou seja, mostrar suas opiniões. Os elogios tem sido praticamente unânimes. Estou realmente feliz por isso.

Você disse que em certo momento da sua carreira, passou a ver outras narrativas para sua música. Quando, mais ou menos, foi isso?

Eu acho que foi em 2003. Meu primeiro disco foi lançado no final de 1997. Naquela época, eu era um adolescente prestes a entrar na fase adulta da vida e só tinha acesso a aquele tipo de cotidiano periférico, violento, na favela, com dificuldades sociais, econômicas e culturais. Depois, viajando e conhecendo outros estados, fui conhecendo como a vida é diferente. O mundo não é seu bairro. Na verdade, o mundo é muito grande.

Lembro que, quando viajei pela primeira vez de avião e tive a sensação de contemplar tudo de cima e ver tudo lá em baixo pequeno, passei a perceber que somos tão pequenos. Passei a me interessar mais por literatura e cinema. Sempre assistia as obras, mas nunca as via como uma obra de arte. Vi que em outras músicas, como o jazz, a música clássica, eletrônica, a MPB, blues, até mesmo a música regional brasileira, possuem abordagens que enxergavam a vida de outra maneira. Uma forma não tão revoltosa como eu via no rap. Disso, fui me tornando eclético. Cada vez que eu dialogava com uma pessoa de outro meio ou classe social me enriquecia. Quando lia livros com uma temática a qual não estava acostumado, passei a perceber que eu poderia ter outros tipos de discursos. Poderia, por exemplo, fundir a minha música com o rock do Chorão e do Rodolfo, que na época ainda era do Raimundos...

Falando em Chorão, como foi gravar com ele?

O Chorão era um cara impressionante e amoroso. Sei que ele teve alguns problemas públicos com algumas personalidades, mas no geral era uma pessoa muito compreensiva. Eu o conheci em 1998, no VMB em que participei introduzindo o Racionais MC’s. Nos encontrávamos algumas vezes e passávamos horas conversando. Passei a dar alguns discos meus para ele e passou a ouvir com carinho. Um dia, ele chegou para mim e propôs que eu participasse de uma música dele. A música que ele queria minha participação tinha relação com um filme dele que, inclusive, fui chamado para interpretar um personagem. No entanto, não deu tempo de lançar. Mas como eu estava prestes a lançar um disco, Música de Guerra – 1ª Missão, o chamei e ele veio. Foi algo muito legal.

Neste dia, nos encontramos num fim de tarde e nos despedimos cinco da manhã. Ficamos muito tempo no estúdio conversando e ouvindo músicas. Num dos intervalos da gravação, havia um espaço social fora do estúdio, e gravavam pessoas de vários gêneros ali. As pessoas iam para fumar, tomar cerveja, refrigerante, água, e nós saímos para pegar um ar livre e conversar. Nesta hora, falei um pouco de Deus pra ele, do plano de salvação que todos os cristãos como eu acreditam. Perguntei se ele já tinha aceitado Cristo como salvador e se queria uma mudança na vida dele. E ele aceitou. Fizemos uma oração muito bonita. Ele ficou emocionado. Depois daquilo, voltamos a gravar, nos despedimos e continuamos a nos encontrar esporadicamente. Infelizmente, ele não teve tempo de mudar o comportamento. Tudo culminou nesta destruição da overdose. No entanto, ele era inteligentíssimo e também inquieto. Às vezes, era tarde da noite, e ele estava me ligando mostrando algum refrão de música que ele escrevia. Depois, ouvia na rádio um baita hit, tocando em todos os lugares.

Esses dias eu tive a honra de ter acesso a uma entrevista gravada a qual ele fala de mim. E algumas coisas ditas me fizeram chorar. Eu ia até colocar esta entrevista no Governe! como interlúdio, fazer uma faixa ou alguma coisa, mas acabei deixando, talvez para o próximo álbum. Trazendo esta entrevista a público será legal, porque as pessoas vão entender que existia uma amizade, respeito e que ele era um cara muito temente a Deus também. É alguém que realmente vai fazer falta. Eu sinto muita falta, fico muito triste em saber que uma pessoa como ele, com tanto potencial, partiu tão cedo.

Não há participações no seu novo trabalho. Isso foi pensado?

Eu já tinha pensado em fazê-lo antes, e cogitava algumas participações. Sabia que seria lançado pela Universal Music, teria uma abrangência maior (como está acontecendo). Mas depois fui pensando que nunca dependi do sucesso a meio para fazer o meu sucesso. Claro que todo mundo que trabalhou comigo contribuiu demais, ajudou bastante, da mesma forma que contribuí com muita gente. Mas todos os meus discos são autorais. A maioria dos rappers escrevem suas músicas. E eu pensei: “Por que não fazer um disco bem autoral mesmo?”. Assumi toda a direção, sem backing vocals (pela minha experiência, consegui fazer), também pra mostrar para as pessoas que, embora eu tenha ido para a maior gravadora do mundo, não vou ser oportunista e chamar grandes astros da música brasileira ou da música gospel. Serei o mesmo, vou falar de coisas que eu acredito, rimar do jeito que acredito, produzir do jeito que deve ser e ver o resultado. Isso também não significa que eu não possa, num futuro disco, chamar pessoas desconhecidas ou até mesmo trabalhar com grandes nomes. Este álbum, na verdade, é uma espécie de cartão de visitas.

Seu disco dialoga com a crise política do país. O que você pensa da situação do Brasil, atualmente?

O que eu penso é o que todo mundo pensa. Estamos sentindo isso no bolso, na hora de tentar consumir e educar seus filhos com uma qualidade maior (porque as escolas são caras). As pessoas estão cada vez mais desanimadas, mais cansadas e desiludidas do futuro. Eu não vejo renovação no cenário político brasileiro que traga soluções a curto e nem em longo prazo. A política do Brasil entrou num esquema de corrupção. Na verdade, o Brasil é um país difícil. Temos um potencial humano muito grande, mas que se limita por falta de cultura, conhecimento intelectual e estudo. Não vejo somente estudo e cultura como requisitos para fazer uma grande nação. Também acho que a espiritualidade deveria ser melhor explorada. O número de religiosos está crescendo, mas ao invés desta espiritualidade receber mais aceitação da sociedade, cria barreiras para os povos. Há muita dissensão entre as pessoas, discussões que tratam do ódio acima do amor. As empresas estão totalmente desorganizadas. Todas as instituições envolvidas nos processos da Lava-Jato pagaram propinas, e todos fazem vista grossa. Por isso que ocorreu este acidente da barragem em Mariana. Alguém chega e ganha uma licitação fraudulenta, os fiscais provavelmente eram pessoas que não faziam isso com afinco, talvez até mesmo subornadas. Muitas pessoas subornam um guarda na rua, um fiscal da prefeitura... Vivemos neste tipo de país em que os indivíduos não estão preocupados com o bem estar coletivo. Muito pelo contrário. Estão preocupados em dar seu “jeitinho” para melhorar o momento.

Quais são seus projetos para o futuro?

Meu contrato com a Universal vai se estender por alguns anos. O próximo projeto que tenho é um DVD com muitas faixas do Governe!. É nisso que vou me concentrar agora e divulgar o novo trabalho, além dos futuros clipes. Tem dois ou mais clipes ainda para fazer. A ideia é continuar dando prosseguimento a este projeto, levando a consciência do hip-hop e a palavra de Deus para as pessoas de uma maneira mais libertária. Para que se sintam livres ao invés de oprimidas. Eu tento colocar as pessoas dentro de um status de graça, misericórdia e amor para que enxerguem onde deve ser mudado e percebam esta luz de Cristo que está na minha vida. Todo este processo que estamos passando na Terra é de aprendizado. E tentar, enquanto estiver aqui, ser o melhor possível. Este é meu projeto de vida há muitos anos e, artisticamente, vejo que meu novo álbum é bem promissor.

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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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