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Em quase 30 anos de carreira solo, Jorge Camargo fala de novos caminhos artísticos em entrevista

Tiago Abreu em 07/01/16 1174 visualizações

Jorge Camargo é um dos músicos cristãos mais completos da cena nacional. Ex-integrante do Vencedores por Cristo, compositor, arranjador, multi-instrumentista, escritor e tradutor, coleciona parcerias importantes e busca novas abordagens artísticas para seu trabalho. Em 2011, lançou Tudo que é Bonito de Viver, escolhido pela equipe do Super Gospel como o quarto melhor álbum da década até agora. De lá para cá, o cantor tem se desafiado a percorrer caminhos poéticos sem clichês religiosos e através de uma linguagem acessível para qualquer pessoa. Da mesma forma, não se considera, de forma alguma, um "cantor gospel". Além de sua carreira ter se iniciado muito antes do movimento gospel, o teor mercadológico e estigmatizante do termo não agrada vários artistas, dentre eles, Camargo. Jorge se sente confortável em ser considerado um intérprete de música popular brasileira.


Seu primeiro disco solo saiu em 1987, de título Salmos. Com quase trinta anos de carreira solo, em quais aspectos você acha que sua música evoluiu?

Em todos. Tecnicamente os recursos eram outros (e menores) à época. O Salmos foi praticamente uma experiência que o Bomilcar (Nelson) e o Ortega (Gerson), alguns de meus mestres musicais, resolveram "bancar" em todos os sentidos. Ele também representa o registro de uma fase (primeira) de composições, a maioria nascida ainda na adolescência.

Naquela época, tendo participando de grupos importantes como o Vencedores por Cristo e o Grupo Semente, foi desafiador iniciar uma carreira solo?

Sem dúvida! Eu tive o imenso privilégio de, pelas mãos do Bomilcar, ser conduzido ao convívio de pessoas que até pouco tempo atrás eu conhecia pela ficha técnica dos discos e que, de repente, eram meus colegas de palcos e de púlpitos. Encarar a experiência de gravar sozinho, dar a cara pra bater foi um desafio enorme.

Tudo que é Bonito de Viver, lançado em 2011, soou como um divisor de águas em sua carreira, pelo intimismo das canções e a reflexão sobre o pensar-fazer poético. Este disco, de alguma forma, foi reflexo de alguma mudança na sua vida pessoal?

Musicalmente falando ele é resultado da minha parceria com o Gladir Cabral, poeta e professor, que entre outros e outras coisas me introduziu com mais profundidade ao mundo da poesia e, principalmente, ao mundo da comunicação de valores que nos são caros (incluindo-se os espirituais), através de uma nova linguagem, mais ampla, menos panfletária, sem clichês religiosos.

Sua obra é marcada por parcerias com João Alexandre, Gladir Cabral e Guilherme Kerr, seja em gravações ou composições. Qual a importância destes músicos em sua vida?

O Guilherme (ao lado do Bomilcar) foi fundamental no início dessa minha caminhada musical. Quando comecemos a compor juntos eu era praticamente um garoto e ele alguém já experiente. Sua mentoria e suas parcerias são um tesouro que eu guardo no coração.

O João, eu costumo dizer a ele que considero um Mozart. Suas harmonizações ao violão são geniais e únicas. Eu me sinto um Salieri (risos). Fizemos parcerias em estúdios, participando de produções como Eram Doze, Vento Livre, O Melhor de Sérgio Pimenta. Restam as parcerias em composições. Quem sabe um dia?

Já o Gladir se tornou nos últimos anos o meu maior parceiro. Começamos a compor juntos faz 10 anos, quando ele participou de minha banca de mestrado. Desde então, tem sido muita coisa. Ele é uma verdadeira usina de criatividade e um poeta de mão cheia. Eu o considero o maior no país, dentro do nosso cenário de música brasileira feita por cristãos. Dá pra imaginar o privilégio que eu sinto, portanto.

Inclusive, você gravou o álbum A Poesia Caminha... histórias de viagens por cidades e sonhos em parceria com Gladir.

Minha esposa Ana Paula fazia um doutorado em arquitetura. Foi quando o Gladir me enviou uma canção sobre Paris. Ao ouvi-la ela nos sugeriu e incentivou a escrever canções sobre outras cidades. Em pouco tempo, tínhamos o repertório do disco pronto. Ela assinou a produção executiva e nós o gravamos no Rio de Janeiro, com produção artística de Fernando Merlino. Eu o considero uma obra especial pela proposta, pela execução e pelo resultado final. Um tratado sobre poesia e sobre interculturalidade.

Seu último disco com canções inéditas foi em 2013. Você tem trabalhado em algum novo trabalho?

Os projetos são muitos. Gladir e eu estamos gravando um novo trabalho juntos, com canções que possuem uma temática relacionada a ecologia.

Temos também um outro projeto sobre artistas e suas principais obras de arte (Da Vinci e a Monalisa, Michelângelo e Davi, Portinari, etc). Há um musical, intitulado (An)danças. Um disco só de sambas. As ideias e os projetos não param.

Você também é tradutor. Recentemente, foi a vez de Lendo os Salmos, do renomado C. S. Lews. Quando você começou a exercer esta atividade?

Comecei traduzindo para a Editora Vida em 1998. Em 2000 fui nomeado tradutor público pela JUCESP. Desde então foram dezenas de livros traduzidos para várias editoras: Vida, Mundo Cristão, Ultimato, Palavra, Geográfica, entre outras.

Como você avalia a música nacional feita por cristãos hoje? Há algum ponto em que deve-se melhorar?

A música religiosa vive o mesmo fenômeno da arte em geral. Passou por um processo de industrialização, que tende a formatar tudo dentro dos mesmos moldes, o que acaba matando a criatividade e a liberdade do artista, que são elementos fundamentais em qualquer arte que se proponha a perpetuar-se.

Creio que a saída é o que de certo modo já tem acontecido. A expressão artística tem readquirido contornos medievais, quando os artistas estão de volta às ruas, produzindo seu próprio trabalho e o expondo ao público.

Se você pudesse indicar dez discos ou músicos para nossos leitores, quais seriam?

A tarefa é complicada, mas vamos lá:

João Gilberto (1973)
Falso Brilhante (Elis Regina 1977)
Chico Buarque (1978)
Clube da Esquina 2 (Milton Nascimento - 1978)
No Compromise (Keith Green - 1978)
Novo Tempo (Ivan Lins - 1980)
Luz (Djavan - 1982)
Brother to Brother (Michael Card e John Michael Talbot - 1986)
Flaming Pie (Paul McCartney - 1997)
Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmos (Gilberto Gil - 2014)

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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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