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Fernanda Brum é entretenimento

Tiago Abreu em 01/12/15 2449 visualizações

Em novembro de 2013, durante o Congresso Internacional de Missões, Fernanda Brum brada: “Eu não sou entretenimento para a igreja!”. Sob lágrimas e frenesi dos fiéis reunidos no local, afirma estar cansada de “tirar os pés do chão”. E, fazendo referência a certos personagens do Velho Testamento, diz que “eu tenho falado, onde eu piso, que Deus está rejeitando Vasthi e chamando Ester. Eu não consigo parar de dizer isso! Uma geração linda, arrumada, brilhosa, famosa, que não quer vir pro Rei”.

Egoístas, fãs e idólatras seriam os adjetivos que caracterizam a “geração” criticada por Fernanda Brum? É correto afirmar que maior parte do seu público nasceu na década de 1990. Fernanda, por sua vez, é filha legítima do famigerado movimento gospel. O boom de exatos vinte e cinco anos atrás atestava as intensas mudanças vividas no segmento evangélico durante os anos 80.

Segundo o Censo 1980, os protestantes históricos eram sutil maioria dentre a população brasileira. Em dez anos, o número de pentecostais inverteu totalmente a ordem: Somavam mais de 65% dentre o total de evangélicos. Outra vertente do pentecostalismo, o polêmico neopentecostalismo, atestou sua força dando impulsão a um movimento musical evangélico de consumo.

É exatamente neste espaço temporal o qual Fernanda Brum se inseriu. Juntamente a Emerson Pinheiro, sua carreira ganhou propulsão quando passou a aliar temáticas introspectivas ao som pop dos teclados de seu marido. No entanto, após o fim da explosão gospel, no início dos anos 2000, passou a admirar a chamada “adoração espontânea”. As canções longas, de frases simples e elementos como o shofar – considerado, na cultura judaica, algo sagrado – ganhou espaço em sua discografia a partir do álbum Apenas um Toque, lançado em 2004. De uma cantora que trazia canções simples sobre a vida cristã e aspirava pensar o interior humano em suas músicas, Brum transformou-se numa ativista, defensora de diversas causas. Também agregou a alcunha de “pastora”. A “igreja perseguida” estamparia a capa do disco sucessor. A cura interior, tão promovida pelo movimento G12, seria o foco de Cura-me, um dos seus discos mais obscuros. O engajamento político faria parte de “Pavão Pavãozinho”, uma das canções mais atípicas de sua carreira.

Com este currículo, óbvio que qualquer desavisado pode acreditar que há coerência no seu discurso emocionado. No entanto, de dois anos para cá, a cantora mostrou não importar, de fato, se suas palavras transmitem algum tipo de sentido. Meses depois, chegava ao mercado digital o single “Gigante do Amor”, música escrita e gravada para a Copa do Mundo de 2014. A intérprete, inclusive, realizou uma campanha para os fãs votarem no portal UOL para que a faixa fosse a mais votada dentre as canções temáticas do evento mundial. E, obviamente, venceu.

Um post aqui e ali, Fernanda Brum publica uma imagem de seu cabelo, com um discurso apaixonado e cheio de referências bíblicas de contexto duvidoso. A novidade mais recente, então, vai para seu novo vlog no YouTube. É isto mesmo: Além de “adorar” nos shows, o fã ainda terá acesso à vida pessoal de sua artista predileta. E caso esteja acima do peso, é só comprar o álbum Corpo Sarado, Mente Sã - Vol.1, vendido em sua loja virtual. Mais do que entretenimento no mundo pop, Fernanda Brum, juntamente com todos os seus profissionais de marketing, sabem muito bem como funciona o business no mundo gospel.

O mais curioso, no entanto, não é a postura controversa que Brum adota, mas os padrões estéticos que a música evangélica desde o movimento gospel – especialmente, a partir do momento em que os grupos de “louvor e adoração” chegaram ao topo das paradas da fé – assume. O cantor evangélico comum possui imensa dificuldade de diferenciar a produção de música que expresse sua fé de uma canção que simplesmente faça propaganda religiosa. Para ele, música deve ser totalmente associada a um conceito chamado de “evangelismo”. Entretenimento e arte são palavras inaceitáveis, independentemente de seus desconhecidos significados. A indefinição adentra a campos teológicos. Lei e graça se misturam de forma bizarra. Para piorar a situação, maior parte dos chamados blogs e portais apologéticos aumentam a lama fazendo piadas, ao invés de lançar luz na ignorância.

Enquanto Fernanda Brum se diverte mergulhando em sua bolsinha de maquiagem, a engrenagem continua a se movimentar. A geração que tira os pés do chão acompanha o discurso confuso de seus líderes. Em nenhum momento conseguem entender a pouca profundidade destas teorias – ou, em grosseiras palavras, histerias – de intérpretes evangélicos. Na verdade, reagem à altura. São estes consumidores que atacam, por exemplo, com um discurso maniqueísta de “gospel” versus “secular”, músicos coerentes.

Mesmo sem qualquer significado para as suas palavras, Fernanda Brum chama a atenção. Se este é o seu objetivo, está conseguindo com louvor.

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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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