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Ouvimos e comentamos mais um disco de Brother Simion - Na virada do milênio. Confira nossos comentários

Tiago Abreu em 16/02/15 2277 visualizações
Ninguém disse que liderar uma banda de sucesso e manter, ao mesmo tempo, uma carreira solo era algo fácil. Independente dos motivos, a saída de Brother Simion do Katsbarnea parecia ser um caminho natural para uma banda que trocava mais de integrantes do que lançava discos. E mais difícil do que manter duas carreiras paralelas é alcançar excelência em ambas. Obviamente, há bons trabalhos de Simion ao longo dos anos, mas também outros que jamais deveriam ter visto a luz do dia.

Entre folks e algumas músicas aspirantes à artistas como Evandro Mesquita, Brother Simion e sua trupe encontraram o rumo quando decidiram fundir o experimentalismo característico de suas canções com produções agradavelmente pops. Com base nesta combinação, o êxito dos álbuns Armagedom e Asas ganhou sentido.

Na década de 90, o rock industrial se expandia, e os moldes eletrônicos caíram no gosto até mesmo de artistas veteranos. Em 1997, David Bowie lançava Earthling. Curiosamente, a trajetória de Brother Simion, que, mesmo musicalmente não possuindo ligações com Bowie parecia trilhar o mesmo caminho.

Em meados de 1999 para 2000, com traços já introduzidos na canção "Tempestade" do anterior Asas, Simion gravou e lançou o álbum Na Virada do Milênio, um passo ousado num mercado tão fechado para o rock, ainda mais com influências eletrônicas. Era o tempo em que Oficina G3 e Fruto Sagrado chegaram às prateleiras com discos acústicos, uma tendência completamente oposta. Loucura? Não, apenas coerência com a tendência internacional.

Apesar da intensa ousadia, Na Virada do Milênio é, como um todo um esforço estranhamente admirável de Brother Simion. O conceito é claro e, embora datado, reflete muito das angústias e idealizações de quinze anos atrás que persistem em nosso cotidiano. O avanço da tecnologia, a descrença em Deus, crises mundiais e caos da humanidade. Onde Encontrar é o exemplo de maior impacto de sua ligação ao techno, com a participação ofuscada de PG nos backing vocals. Percebe-se que as canções mais agitadas são os pontos altos do álbum, em que o produtor Amaury Fontenele (um produtor competente como este neste nicho está faltando atualmente) exerce sua maior influência nos arranjos.

As baladas do disco são, em grande parte medianas. Não que lhe faltam qualidade, mas não soam tão fortes para a proposta que o álbum pretende registrar. Certamente, Sede é uma de suas exceções, justamente por manter uma estrutura mais tradicional ao trabalho de Simion. Com agradáveis linhas de baixo de Jadão, é o exemplo de power ballad que nunca falta nos discos do cantor. De brincadeiras como 01001011 e faixas esquizofrênicas com letras chocantes como Caos, o álbum reserva algumas surpresas, como a influência blueseira de Help e a lírica acessível de Profecia, concluída na música que fecha o projeto, Restauração.

Esforçado, Na Virada do Milênio consegue contextualizar musicalmente as angústias e incômodos de sua época, algo que seus contemporâneos não pareciam assimilar muito bem. Se Bowie recebeu mais aceitação em seus registros posteriores (antes de sofrer infarto e passar anos recluso), o mesmo ocorreu com Brother, que optou por fazer um som mais próximo de seu estilo. Quinze anos depois, o álbum permanece como o mais vanguardista e atípico de toda a carreira de Simion.

Nota: ★★★★
Na virada do milênio

(CD) 11/00


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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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