Análises

Ouvimos o clássico da Banda Azul lançado em 1988 - Espelho nos Olhos. Confira nossa análise retrospectiva

Thiago Junio em 31/05/18 968 visualizações
No dia 31 deste mês, Espelho nos Olhos da Banda Azul marca trinta anos de lançamento. A obra representa uma grande importância para a história do rock cristão no Brasil, sendo considerada também um dos clássicos da música cristã brasileira; é o único álbum da banda tendo a participação do músico e fundador Janires. Por isso, já se situa como uma produção de alto cunho histórico e valor, já que antes do lançamento, o vocalista viria a morrer em um acidente automobilístico. Ele se dirigia de Rio de Janeiro a Belo Horizonte, para um culto, onde um público em torno de menos de mil pessoas, o aguardavam na Mocidade para Cristo (MPC). Aos 34 anos, o músico falece, deixando um grande legado de criatividade artística e poética, por suas letras que uniam o Evangelho e contextualização cultural e a vida devotada a missão cristã; de certa forma, pela história de vida marcada por uma grande conversão e tal dedicação pós-conversão, Janires pode ser considerado o Keith Green brasileiro.

De lá pra cá, Carlinhos Felix, vocalista do Rebanhão, cantou Baião Eletrônico, o Baixo & Voz se apropriou muito bem de Veleiro e o álbum ao vivo Tributo a Janires fez algumas performances da maior parte das canções do disco. Mas o projeto original mantém seu valor e não perdeu a consistência, mesmo numa década em que o new wave deixou tudo datado. Espelho nos Olhos é mais rico: Passa por referências ao rock progressivo, baião, música popular brasileira, pop rock e reggae. A junção dessa nascente de influências deságua em Canção das Estrelas. Esta canção introduz a obra com um solo psicodélico de guitarra e teclado, em timbre de órgão, cantada por Janires, Guilherme Praxedes e Moisés di Souza.

A qualidade instrumental não deixa a desejar e a banda é bastante entrosada. O álbum contou com produção musical de Janires, algo que o músico nunca tinha feito individualmente nos seus discos com o Rebanhão. Isso reflete na sua participação majoritária no registro – apenas Amigo Poeta, uma bela homenagem de Praxedes ao legado do ex-companheiro de banda – em nove das dez canções. Algumas dessas músicas carregam fortemente o seu estilo de composição de diálogo, como Amigo, Amiga, uma mistura de pop rock e new wave com uma agradável e evidente linha de baixo, com versos caracteristicamente evangelísticos, enquanto Meninos da Rua explora o lado mais poético do compositor.

A faixa-título, Espelho nos Olhos, é pop rock com predominância dos teclados, e sua peculiaridade se faz pela letra, poética e autobiográfica. Com o passar dos anos, foi interpretada quase que como uma confissão antes de sua morte. Na verdade, é uma coincidência com suas declarações acerca de sua primeira viagem aos Estados Unidos. Nessa letra, Janires faz uma antropologia a partir de si mesmo, do ser humano, este o qual sempre ansioso para buscar algo além, como já defendia o teólogo e filósofo Agostinho de Hipona que o homem só encontra descanso quando seu coração repousa-se em Deus.

Foi por Você apresenta uma introdução psicodélica e um reggae com muitas referências culturais e de entretenimento, como Dom Quixote, Popeye e o Peter Pan. Desenvolve, assim, vários tipos de personalidade para o qual Cristo morreu, desde ao intelectual ao homem simples e desempregado. Veleiro segue por uma balada de pop rock, cuja letra expressa a já citada assertiva de Agostinho, “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti.”. Aqui, o compositor compara o coração humano a um veleiro em busca de um porto para ancorar.

Janires, ao longo de sua trajetória com o Rebanhão, mostrou ser popular mesmo em composições de temáticas mais profundas e críticas. Isso é reforçado com a letra de Coração Azul, cujos versos trazem abordagens de crítica à ditadura militar, principalmente com relação aos métodos de censura e tortura, mas de forma tão suave e, assim, não soa tão dura o quanto se supõe. Liricamente, o autor constrói uma interação simbólica entre o exílio dos poetas devido ao regime que voltavam ao país com a condição existencial de exílio do ser humano e a única esperança em Cristo. Além disso, o arranjo do refrão se mostra proeminente sobre a música.

A última canção do registro e que encerra as gravações existentes de Janires, não poderia ser outro tema como o céu. Trem da Amizade segue num ligeiro boogie woogie, enquanto o cantor faz muitas referências a vários artistas e músicos cristãos da época, assim como personalidades históricas da fé cristã, como Lutero, os quais vão entrando no trem da amizade em direção à eternidade. Caio Fábio, Quarteto Vida, Rebanhão, Milad, Jovens da Verdade, João Alexandre, Sérgio Pimenta, Vencedores por Cristo, Asaph Borba, Banda & Voz, Comunidade S8 e Sinal de Alerta são alguns dos citados.

A riqueza de gêneros explorados pelos músicos e a variedade de temas explorados não fazem Espelho nos Olhos um registro pesado e carregado, muito pelo contrário. É, ao mesmo tempo, uma produção contextualizada, de sua época, e ao mesmo tempo, à frente de seu tempo, tanto pela criatividade de Janires como por se orientar pela fé em Cristo para a qual ele se devotou até o fim. A despeito da morte do vocalista, o que torna a obra uma realização póstuma, a banda continuou, embora o talento de seu fundador não estivesse presente, ausência de peso na irregularidade dos álbuns posteriores da Banda Azul.

Avaliação: 5/5

Colaboração e revisão: Tiago Abreu
Espelho nos Olhos

(CD) 05/88


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