Análises

Ouvimos o novo álbum do Diante do Trono - Deserto de Revelação. Confira nossa análise

Tiago Abreu em 28/11/17 5645 visualizações
Um dos impasses pelos quais o Diante do Trono passou nesta década reside no fato de que sua visibilidade não é a mesma de tempos passados. Nos anos 2000, o cenário congregacional era constituído por dois grandes nomes: O Diante do Trono, sob uma estrutura independente impenetrável de canções poéticas em grandes ajuntamentos, e o Toque no Altar (mais tarde, Trazendo a Arca), que aos poucos ganhava as massas com temáticas mais humanas em roupagens pop rock.

Os tempos passaram. O congregacional transformou-se com nomes solo e, na contemporaneidade, viu em Gabriela Rocha seu maior potencial. A formação do Diante do Trono, na tendência dessas mudanças, se viu no desafio de promover uma comunicação entre o antigo repertório e as novas canções pop-worship. O resultado foram discos desconfortáveis. Tu Reinas (2014) e Tetelestai (2015) foram registros que impuseram certo valor de mutação ao grupo, mas ainda existia um senso de inadequação perante a nova estrutura. No entanto, com Deserto de Revelação, o conjunto soa mais seguro em relação ao seu lugar.

Esta segurança está diretamente relacionada a Ana Paula Valadão. Com o projeto, a cantora confirma sem reservas que o Diante do Trono é a sua única via artística. A intérprete, além da comum função de compositora, ganha maior espaço como solista. A sua força vocal não corresponde ao vigor dos anos áureos, mas suas performances são corretas e esforçadas, tanto em baladas como Sobre as Águas, quanto aos momentos dramáticos de É Suficiente, que sugerem o clamor pela provisão divina em meio aos sofrimentos terrenos.

O álbum também é superior aos anteriores na concepção de repertório e ritmo narrativo. Sem a pressão de oferecer regravações, a obra mantém um equilíbrio entre as músicas temáticas e as canções mais introspectivas, em que a autoria e vida da vocalista se fazem de forma mais intensa. Águas do Jordão e Rios de Lágrimas não soam deslocadas conforme o local escolhido para as gravações do projeto, assim como Amor que Me Abraça dá coesão ao tom pessoal impresso por Ana Paula Valadão ao álbum. A intérprete não somente conduz o tom congregacional, como se abre ao público com seus sentimentos e gera legitimidade ao trabalho.

A vida pública de Valadão, nos últimos tempos, sofreu revezes por parte do público por declarações polêmicas nas mídias sociais. Além disso, rumores em torno das questões administrativas e financeiras do conjunto indicavam uma possível ruptura. Mas, ao invés disso, o grupo não se afundou. E como diria a faixa-título, enfrentar a escassez artística é parte de seus planos. Deserto de Revelação, pela primeira vez em muito tempo, mostra um Diante do Trono equilibrado, que reconhece as perdas dos últimos anos e, assim, oferece um caminho possível com seu melhor trabalho desde Creio (2012).

Avaliação: ★★★☆☆
Deserto de Revelação

(CD) 01/17


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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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