Análises

Ouvimos o novo disco do Catedral - No Mundo do Extremamente Permitido. Confira nossa análise

Tiago Abreu em 12/03/18 5478 visualizações
Entre 2016 e 2017, o Catedral protagonizou um dos maiores vexames da história da música evangélica. O trio, que anunciou uma turnê de despedida da carreira, não aguardou sequer seis meses para surpreender o público dizendo que retornaria em 2018. A campanha de marketing de última categoria foi concluída este mês com o lançamento de um disco inédito. No Mundo do Extremamente Permitido, claramente com uma proposta musical mais agressiva e politizada, é uma reminiscência de Epílogo (2014), um dos raros momentos de criatividade da banda carioca nos últimos quinze anos.

Mas diferentemente do razoável EP lançado no passado, o novo disco do Catedral é uma coleção de figurinhas repetidas naquela vibe post-punk oitentista, ora em baladas românticas de versos piegas. Ladrão, por exemplo, é uma espécie de continuação mal desenvolvida de "O Labirinto de Fausto" ao fazer uma crítica mais direta e insossa aos grandes e polêmicos pastores neopentecostais. Quando Alguém É Tudo é tão derivada de "Amo Tanto Amar Você" que permite questionar se a capacidade criativa do grupo consegue ultrapassar o mesmo território de canções sobre romances desde a segunda metade da década de 1990.

É claro que há um esforço visível da banda em transpor caminhos. O baixista Júlio Cezar, mais talentoso integrante remanescente, ainda brilha como sempre até nas canções menos impressionantes, como a pouco atrativa Não Há Nada, assim também na bem desenvolvida Obra-Prima – que salva o álbum de uma catástrofe total – e até a mais complexa instrumentalmente Nudez de Alma. Em contrapartida, a antipatia vocal e lírica do vocalista Kim continua sendo uma barreira evidente. O cantor aparentemente quer transmitir paixão, ironia, sarcasmo, introspecção e reflexão com uma expressão vocal monocórdia e esgotada.

Dentre a lógica do trabalho, também há claras contradições. Tolerância, por exemplo, tenta abrir um espaço conciliador com diferentes segmentos da sociedade com o discurso de "mais de Deus, menos religião". Porém, as bases religiosas e ideológicas do trabalho são intransponíveis na faixa-título No Mundo do Extremamente Permitido. Com uma crítica conservadora ao chamado "politicamente correto", vai ao outro extremo ao enxergar as mudanças sociais e econômicas como um inimigo a ser combatido.

Ou seja, a banda pode até tentar ser cool e "antenada" com os temas em alta da atualidade, mas sua leitura beira o previsível com o que se espera de homens de meia idade. A intenção de aparentar-se politicamente relevantes atinge o ápice de ineficiência com o single O Chefe da Quadrilha, recheado do velho discurso anti-PT, como se as instituições políticas no país não vivessem uma falência muito mais séria, gereralizada e complexa, a qual ainda perdura nas manchetes diárias dos jornais (mesmo com as mudanças de governo). No Mundo do Extremamente Permitido é um registro claro de uma banda cuja luta contra sua própria obsolescência está completamente perdida.

Avaliação: 0,5/5
No Mundo do Extremamente Permitido

(CD) 01/18


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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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