Análises

Ouvimos o trabalho mais recente do Preto no Branco - Preto no Branco 3. Confira nossa análise

Tiago Abreu em 08/04/19 3063 visualizações

Preto no Branco 3

(CD) 01/19


Seja o primeiro a avaliar

Ouça e dê sua nota

Clovis Pinho é Preto no Branco. Nenhum eufemismo pode remover o festivo Preto no Branco 3, terceiro trabalho do grupo mineiro, da imagem de seu único vocalista e compositor. Após a saída de Weslei Santos, responsável pela produção e por parte do direcionamento intimista de Preto no Branco 2 (2018), a banda abraça o exagero, aquilo que é a sua maior marca e, também, sua maior fraqueza.

Em 2019, Preto no Branco é um fenômeno estabelecido o qual ninguém consegue ignorar. Desde o sucesso meteórico de “Ninguém Explica Deus” (um literal hit, tocado em carnavais, igrejas, ambientes universitários e carros de rua) e as intensas mudanças de formação – aprofundadas pela saída do tecladista e vocalista Weslei – o grupo é um ato pop, rock, black, samba-reggae ou o que mais caber na dimensão do seu som. Ao contrário do registro anterior, baseado em uma angústia de homens na experiência da espiritualidade, o novo grupo não se incomoda com o status quo – ou melhor, também não se contenta com ele.

Preto no Branco parece tão consciente das fórmulas pop, mas ao mesmo tempo não é um ícone de massa típico do cenário cristão, especialmente quando sua música se volta à essência de artistas negros na realidade evangélica. Pinho & cia é a mistura escura do urbano com o tradicional, do simpático e crítico, do autossuficiente mas antenado às rádios. Se esse intercâmbio não funcionou no primeiro álbum e não foi tão explícito no segundo registro, começa a encontrar seu tom no terceiro lançamento.

Clovis Pinho é o autor de quase todas as faixas, exceto o cover Lágrima no Olhar, uma palavra de esperança nos vocais melódicos de Gabriela Gomes e seu pai, o compositor Marquinhos Gomes. Fora isso, é o vocalista o responsável por determinar a temperatura variante do registro. Ele pode fazer do seu público, o que frequentemente chama de “família”, um estímulo intenso com a descompromissada Estado de Graça, ao mesmo passo que estabelece uma melodia suave na visão romântica da oração na poética O Sonho.

Esta imersão permite que o disco consiga trazer nomes tão díspares como Nívea Soares (O Leão e a Igreja) e César Menotti & Fabiano (Com Você Eu Topo). Ao mesmo tempo, a linguagem é mais ampla justamente pelos convidados. Clovis, sozinho, dificilmente conseguiria alcançar a mesma sensibilidade sob a nostalgia da infância sem a colaboração de Marcos Almeida em O Autor e na assinatura de Estêvão Queiroga como co-autor em duas canções. A ausência de Weslei Santos pesa neste sentido, e faz com que Pinho mantenha o Preto no Branco como um conceito ao invés de uma banda completa. A capa, inclusive, é uma ilustração e não traz fotos dos integrantes, diferentemente dos dois primeiros álbuns.

Apesar de ser uma produção mais crua em comparação ao trabalho anterior, o álbum é o primeiro disco desde D’Alma (2005), do Apocalipse 16, bem-sucedido em retratar a cultura negra com a realidade evangélica. As participações de Sync3 em Meu Grande Amor e especialmente de Kivitz no pagode baiano Se Organize – o melhor momento da obra – tornam o projeto mais musculoso e contextualizado com a própria música e os dilemas nacionais. Esta última, aliás, envolve tantas excentricidades na mistura de cântico cristão infantil com poesia de rua que, por pouco, você se esquece do fato de serem elementos muito bem escolhidos, quase matemáticos.

Embora seja facilmente comparável ao trabalho do Apocalipse 16 de 2005, principalmente pelo fato do grupo paulista, naquela época, ser representado também por uma única figura em pleno terceiro álbum inédito, Clovis Pinho não é Pregador Luo. Enquanto Luo parecia naturalmente deslumbrado, leve e apaixonado com todas as possibilidades musicais extra-rap, Pinho é um homem mais velho e, portanto, cercado de maiores preocupações. Seu disco solo mais recente, Ninguém Explica Deus (2016), fornece razões para que seu trabalho seja visto como algo calculado até demais, inclusive pela escolha de parcerias. De qualquer forma, como compositor, o intérprete mostra saber o que está fazendo ao explorar tantos caminhos. Assim, Preto no Branco 3 retrata o quanto esta banda (e sua principal figura) é uma bazuca que, ao invés de granadas, atira confetes.

Avaliação: 4/5

Preto no Branco 3

(CD) 01/19


Seja o primeiro a avaliar

Ouça e dê sua nota

Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


Comentários

Para comentar, é preciso estar logado.

Faça seu Login ou Cadastre-se

Se preferir você pode Entrar com Facebook

Receba as novidades de música gospel diretamente no seu WhatsApp. Seja avisado sobre novos vídeos ou músicas.

Entrar no grupo

Este é um serviço totalmente gratuito e você pode sair quando desejar.