Análises

Relebramos um dos álbuns de Lucas Souza, que completa 10 anos - Cidade do Amor. Confira nossa crítica

Tiago Abreu em 25/07/19 962 visualizações

Em abril de 2009, Lucas Souza era um homem de 26 anos muito bem resolvido artisticamente. Suas guitarras post-britpop eram orientadas a territórios pouco explorados de um cenário evangélico cada vez mais australiano. Além dele, apenas Heloisa Rosa, parceria recorrente em sua obra, ousava a transformar todo o mix de influências estrangeiras em uma roupagem autoral.

Há outras duas semelhanças que aproximam os dois cantores. Uma delas é que Heloisa era uma amante da simplicidade, e o ponto de inflexão em sua carreira se dá entre a produção direta de Andando na Luz (2006) e a ousadia do florescente Estante da Vida (2008), enquanto a ambição de Lucas também cresceu exponencialmente no mesmo período. A outra é a existência de Unção que Une (2006) e Doxologia (2008), dois projetos que não negam a importância do cântico cristão mais tradicional.

A mistura do tradicional e do contemporâneo é o método norteador de Cidade do Amor, um dos raros discos evangélicos que, desde o lançamento, foi observado corretamente como um potencial clássico. Um clássico não porque necessariamente é um projeto que olha para a frente (como realmente observa), mas porque assume um enorme risco como conciliador. Os versos da eletrônica O Mundo Viu a Sua Luz têm um sentido comunitário muito semelhante aos antigos cânticos, mas de forma nenhuma estão descaracterizados pelo som.

Essa mistura também se deve ao som assinado por Lúcio Souza – o Silva –, responsável pelo mix de influências de bandas que, em 2009, já se perdiam em suas discografias. A nova roupagem de Eu Quero Ir é o típico Keane de Under the Iron Sea (2006), enquanto Perdido no Espaço? traz o espírito Oasis reavivado pelos pianos do Coldplay de 2002. Assim como Quebra e Refaz e sua vibe à lá John Mayer, são faixas leves, sem glamour, em que o clima de intimidade dos versos sugere nostalgia e pouca urgência.

Enquanto Heloisa se debruçou ao recomeço da jornada em Estante da Vida, Lucas canta como uma espécie de embaixador sem fronteiras. Em Cidade Acesa e Eu Só Penso em Você a paixão missional é excitante, enquanto Cidade do Amor se desenvolve em maior melancolia. O meio-termo é justamente uma das canções mais grandiosas do registro, Teus Olhos Meus Horizontes, cuja construção parece evocar o Skank de Cosmotron (2003).

Lúcio, seu irmão, tem função primordial no registro. Algumas das melhores canções são de sua autoria, como O Lar, e seu estilo de composição é, sem dúvida, inconfundível. As letras do tecladista são mais abrangentes e filosóficas, enquanto Lucas é um compositor mais acessível. Os dois juntos são completos (Incomparável Tanto Amor explica muito bem, inclusive, de onde vem o título solo Claridão).

Com Cidade do Amor, Lucas alcançou o ponto máximo de sua trajetória artística no meio evangélico. A partir dali, o intérprete dificilmente alcançaria novos horizontes criativos. O cantor era consciente do fator de risco envolvido em uma obra que não romperia o cenário dicotômico do meio religioso na década de 2000. Tanto é que o show Revolução de Jesus, lançado logo depois em 2012, retrocedeu na discografia do cantor ao explorar Caminho de Revolução (2005). Entre idas e vindas, Lucas escolheu o backstage em outros meios, com outros versos, o que tornou Cidade do Amor um sonho romântico cristalizado no cancioneiro cristão.

Avaliação: 4,5/5

Cidade do Amor

(CD) 03/09


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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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