Análises

Relembramos um dos álbuns do Rebanhão, que completa 20 anos - Vamos Viver o Amor. Confira nossa crítica

Tiago Abreu em 28/02/19 1041 visualizações

Vamos Viver o Amor

(CD) 11/99


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Tudo se desmontou em Pé na Estrada (1991). Depois de álbuns sob o comando criativo de Janires, o trio protagonizado por Pedro Braconnot, Paulo Marotta e Carlinhos Felix esculpiu o som do Rebanhão em uma sonoridade equilibradamente pop dos anos 80. As canções, fincadas em temas sociais sob a realidade cristã do século XX, eram estruturadas com uma sagacidade brasileira cujo auge se deu em Princípio (1990). Coincidentemente, é neste disco que Braconnot alargou os horizontes instrumentais da banda, promovendo uma cosmovisão engendrada nas guitarras de Felix e no tratamento dado aos seus pianos e teclados.

Eles não eram os mesmos jovens ancorados na experiência de Janires. À altura do álbum de 1991, encaravam a vida adulta em uma década de carreira e uma gigante explosão do chamado movimento gospel. O mais cerebral projeto do Rebanhão foi liberado em meio ao início da carreira solo de Carlinhos Felix e a decisão pessoal, logo depois, de afastamento de Paulo Marotta. O distanciamento entre os três indicava que Braconnot, único remanescente da formação original, tinha a missão de reestruturar o grupo sem o mesmo contexto juvenil pós-anos 70.

A decisão gerou uma nova banda e, consequentemente, um disco que não representava a ideia radio friend dos álbuns anteriores. O compositor de "Metrô" fez Enquanto É Dia (1993) diferente em atmosfera, pautado por uma melancolia relativamente consistente. Pedro, ao lado de Pablo Chies, Wagner Carvalho, Rogério dy Castro e Dico Parente, trabalhou intensamente sob a forma das canções e suas letras. Mas mesmo com a expansão, o sucessor Por Cima dos Montes (1996) demonstrava uma preocupação muito maior com a textura musical – imbatível quando o assunto é Rebanhão – do que com as declarações. Das regravações referenciais a Janires ("Baião", "Salas de Jantar") até a saída dos novos músicos, Braconnot estava cada vez mais sozinho no processo criativo.

A desconexão artística do Rebanhão não era simplesmente uma questão interna. Vamos Viver o Amor surge exatamente num período em que a música evangélica, agora gospel, se deparou com números estratosféricos com a ascensão do pentecostal e do congregacional. A banda, que antes ditava as regras, se via empurrada numa direção lírica do louvor das igrejas. Nem mesmo a nova formação, composta por Israel Maximiliano (guitarra), Fábio de Carvalho (baixo) e Rafael Fariña (bateria), conseguiu reverter o tom datado pelo qual o álbum é caracterizado. O projeto, ao passo que define Jesus como amor em referência ao discurso de evangelismo, também lida com a crise do ideal de evangelização no final do mesmo período.

Rebanhão raramente foi uma banda que precisou se escorar em seu passado, mas o trabalho de 1999 reforça esta necessidade. A regravação de Fronteiras é uma conexão virtual ao antigo grupo, afinal nenhuma outra canção inédita do álbum consegue fornecer laços consistentes com o passado. Maximiliano é o autor de grande parte das faixas, orientadas por uma versatilidade que vai do pop rock típico do Yahoo (Ele é a Luz) até o black (Mais que Amigo), porém convencionais demais para os próprios padrões do grupo carioca. E Pedro Braconnot, em uma direção semelhante pouco conectada ao histórico do conjunto, compõe grande parte das canções do projeto.

O tecladista canta jargões incomuns para o grupo em Josué, enquanto evoca a mesma tônica pentecostal da época em Unção, dona do melhor arranjo do projeto. E embora essas assimilações internas sejam feitas conforme o seu tempo, este não é o Rebanhão que representou uma multidão de jovens nas décadas de 1980 e 1990 ao olhar para a fora da caixa evangélica. Por isso Pedro Braconnot soa inquieto e desconfortável na worship Meu Maior Desejo e na celebração Nós Te Adoramos.

Tempos depois de lançar o disco em 1999, o Rebanhão não se manteve ativo. Apesar disso, ao contrário do que se podia presumir, Vamos Viver o Amor nunca soou como um canto do cisne, ou o álbum final o qual a banda ainda pode oferecer – e o seu retorno com o ao vivo 35 (2017) prova isso claramente. No início dos anos 2000, o grupo percebeu o quão implacável o novo cenário gospel era com conjuntos originários da paixão evangelística oitentista. E mesmo diante de uma metamorfose aparentemente esperta a curto prazo, a batalha já estava perdida.

Avaliação: 2/5

Vamos Viver o Amor

(CD) 11/99


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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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