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Relembramos um dos sucessos de Lauriete - Palavras. Confira nossa análise retrospectiva

Tiago Abreu em 01/06/19 697 visualizações

Palavras

(CD) 01/99


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Após ganhar notoriedade na segunda metade da década de 1990, Jairinho Manhães se tornou um dos produtores mais presentes em gravações evangélicas de grandes artistas, e colaborou na definição do que hoje chamamos de gênero. É comum falar sobre pentecostal e ter no imaginário cristão um significado fora do aspecto teológico, e grande parte disso se justifica com a musicalidade do álbum Palavras.

Não que elementos power pop com temáticas de fogo não existissem antes de 1999, afinal nomes como Shirley Carvalhaes e Rose Nascimento estavam na estrada muito antes disso. Mas Palavras, ao lado de Com Muito Louvor, de Cassiane, inauguraram uma estética referencial para toda uma geração. É um tipo de música sedutora, quente, escancaradamente radiofônica para os padrões evangélicos, mas relativamente versátil perto do que era produzido até aquele período.

20 anos depois, Palavras continua a ser o melhor álbum de Lauriete e um dos melhores registros pentecostais de sempre. As composições são mais trabalhadas em comparações a projetos antecessores, como Sou Feliz (1998), e não são tão convencionais ao gênero como as obras lançadas a partir de 2001. Seus relançamentos, no entanto, são mais modestos. O projeto entrou nas plataformas digitais com versão playback inclusa e com a remoção da canção O Teu Olhar, coincidentemente a faixa menos agradável do projeto, um dueto da cantora com o ex-marido Reginaldo Almeida.

Embora em retrospecto a remoção desta canção em específico soe como uma tentativa de reescrever a história, a inclusão do então marido nas gravações apenas criou um aspecto familiar que não se encaixou com o restante do álbum, afinal a autoria da música era de Léa Mendonça e Almeida se saiu como um intérprete desastroso. Apesar disso, a compositora cumpriu um papel fundamental no registro, com a abertura Espírito de Deus, uma das músicas mais poderosas da obra, uma reflexão sobre a vulnerabilidade humana frente a onipotência divina.

A seção rítmica do álbum incluiu nomes fundamentais para o gênero, como o baterista Sidão Pires e o baixista Marcos Natto, enquanto as coberturas ficaram a cargo dos tecladistas Jairinho e Rogério Vieira. Os quatro músicos criaram uma atmosfera intensa da primeira a última faixa. É axé (Cristo Vive), forró quase repentista (Varão de Glória), congregacional (Louvor) e samba com elementos de pagode (Frutos da Oração), tantos gêneros que ganham coesão com a voz de Lauriete.

Como intérprete, Lauriete é o nome mais intenso do pentecostal, uma característica responsável por torná-la uma das grandes vozes do gênero, e ao mesmo tempo, a mais excessiva. É difícil considerar outro nome de maior impacto fora o canto crooner de Lauriete, ao mesmo tempo que seria fácil encontrar outras cantoras responsáveis por dar, a canções como o pop rock Coração Legal, uma abordagem mais leve. Apesar disso, excessos são muito bem vindos em certas canções, e a misteriosa Glorifica, que se alterna em uma balada de piano com trechos de influência flamenca, é o auge desta relação polivalente.

A única canção mais distante desta regra é a faixa-título. Palavras, cuja composição fora assinada por Roberto Carlos de Oliveira, é mais Jairinho pelas cordas e pelos teclados. Lauriete, por sua vez, consegue modular suas cordas vocais para versos de fragilidade como "sou eterno dependente / ser humano tão carente". É dolorido e frágil, mas não exageradamente emocional. O refrão colabora bastante para que a cantora encaminhe "sofrer contigo é bem melhor do que errar" como alguém em busca de redenção.

Um dos aspectos mais fortes sobre Palavras e seu "primo" Com Muito Louvor é a leveza. Apesar da seriedade de canções como Em Nome de Jesus, a variedade musical também se traduz na linguagem. São registros cuja parte do repertório é mais descontraída, especialmente as canções de influência nordestina, e isso se equilibrou de forma única para Lauriete e Cassiane. Da mesma forma que Cassiane começou a se levar mais a sério em Recompensa (2001) e principalmente em A Cura (2003), Lauriete tenderia a observações mais dramáticas sobre a condição humana e do cristão em O Segredo É Louvar (2001). Isso tornou Palavras um álbum singular em sua discografia.

Avaliação: 4,5/5

Palavras

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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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