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Trazendo a Arca chega a quinze anos procurando se reciclar em Habito no Abrigo

Tiago Abreu em 12/11/15 1817 visualizações

Há pouco mais de dez anos, os quatro integrantes do Trazendo a Arca estavam no Olympia, junto a vários companheiros de estrada, gravando um projeto audiovisual. Era o primeiro trabalho neste formato, e reuniu muitas canções dos dois primeiros projetos da banda. Até ali, o grupo Toque no Altar era um fenômeno nacional totalmente independente de gravadoras ou experts do mercado fonográfico. Um produto totalmente legítimo, destacado por duas figuras, por muito tempo inseparáveis em suas trajetórias: Luiz Arcanjo e Davi Sacer.

O auge

Toque no Altar e Restituição foi gravado em 8 de novembro de 2005. Nas lembranças de Luiz, foi um desafio: "Não tínhamos nenhuma experiência audiovisual ainda, e claro, algumas coisas não saíram como queríamos, mas o que Deus fez através daquele DVD compensou tudo aquilo que não era pra ser". Com direção de Hugo Pessoa, o projeto introduziu o grupo ao seu auge musical e conceitual. Naquela época, Luiz e Davi assinavam a maioria das composições, dentre outras, escritas também por Ronald Fonseca e Deco Rodrigues.

O álbum foi lançado em abril de 2006, um mês antes do maior sucesso do Toque no Altar – Olha pra Mim. Juntando as habilidades conceituais de Luiz, produção de Ronald Fonseca e colaborações de Davi nas composições e em alguns dos vocais, o álbum calcou passos altos na carreira dos fluminenses de Nova Iguaçu. "Olha pra Mim", "Tua Graça me Basta", "Lembra Senhor", "O Chão Vai Tremer", dentre outras, chamaram atenção pela consistência musical e valor poético.

A parceria chegou ao fim no final daquele mesmo ano. Após crerem que a nova estrutura não era legítima como a anterior, sete integrantes deixaram o grupo musical e fundaram outro, calcado nos mesmos princípios comerciais anteriores, prezando pela independência. Ali, a trajetória de Toque no Altar foi batizada com novo nome, Trazendo a Arca. Luiz Arcanjo, Davi Sacer, Ronald Fonseca, André Mattos, Verônica Sacer, Deco Rodrigues e Isaac Ramos tornaram-se protagonistas na música cristã nacional por mais de um ano, através dos álbuns Marca da Promessa, Ao Vivo no Japão e o ambicioso ao vivo gravado no Maracanãzinho.

Novas direções

Sob novos caminhos, e após a poeira abaixar, os membros do Trazendo a Arca passaram a enxergar certas realidades sobre o universo evangélico. Todas aquelas vivências geraram o disco Pra Tocar no Manto. Escrito, em maior parte, por Luiz Arcanjo, sinalizava uma direção inédita que, de certa forma o colocaria como protagonista. O álbum reserva várias críticas, nunca feitas pela banda. Questionado se o álbum foi um divisor de águas na carreira do conjunto, Luiz foi cauteloso: "Embora nunca fizemos músicas para dar respostas a ninguém, no CD Pra Tocar no Manto abordamos temas que até então não era comum para nós abordarmos, e olhando por esse lado talvez esse CD tenha sido realmente um divisor de águas. Realmente havia em nós uma certa inquietação com a superficialidade do evangelho vivido em muitas das igrejas e shows por onde passávamos e decidimos abordar alguns temas que sabíamos que nos faria correr o risco de nos tornarmos não tão populares como éramos até então". O cantor nega que exista alguma influência dos imbróglios de 2006/2007: "De maneira nenhuma! Em 2009 a poeira já havia baixado e todo aquele clima tenso do final de 2006 já não teria o poder de influenciar aquilo que dizíamos, porque estávamos vivendo um outro momento. Canções como "Quem é Você" e "Perdoa" talvez possam ter soado como algum tipo de indireta ou resposta, mas creia! Não foram".

O disco sucessor, Salmos e Cânticos Espirituais, foi anunciado por Davi que, em entrevista ao Super Gospel, afirmou ser um de seus trabalhos preferidos. A dupla, que se separou em 2010, escreveu músicas que ainda não foram lançadas. Duas delas, no entanto, foram divulgadas recentemente. Sacer gravou "Essa Noite que Passou" no álbum Às Margens do Teu Rio (Art Gospel, 2012) e o Trazendo a Arca registrou "Magnífico Deus" em Na Casa dos Profetas (Canzion, 2012). Sobre estas faixas com Davi, Luiz disse: "São canções da época em que o Davi ainda estava no ministério e ainda existem algumas dessa parceria que não foram gravadas. Davi ainda é um amigo e irmão... Hoje a dificuldade que temos são nossas agendas, mas quem sabe um dia não conseguimos sentar e compor juntos? Não seria impossível".

Davi Sacer saiu do grupo em abril de 2010. A maioria das canções do álbum sucessor, Entre a Fé e a Razão, foram escritas por Luiz e o tecladista Ronald Fonseca. Além de Live in Orlando, gravado nos EUA em 2011, a banda chegou a lançar uma coletânea comemorativa em setembro do ano seguinte. Nesta época, Ronald não estava mais na banda. Principal arranjador e produtor do grupo, sua saída, no entanto, não afetou muito o grupo, segundo Arcanjo: "Ronald Fonseca foi um dos elementos mais importantes na história e identidade musical do grupo, mas uma das características desse ministério e creio que seja uma de nossas maiores riquezas é que sempre houve uma pluralidade e diversidade de talentos. Nunca fomos dependentes do talento de um único elemento. É claro que abrir mão de um talento como o Ronald não é nada fácil, mas por outro lado isso nos desafiou a buscar outras possibilidades, nos reinventarmos de tal maneira que estamos bem satisfeitos com o resultado desse projeto".

Habito no Abrigo

Arcanjo diz com muito entusiasmo sobre Habito no Abrigo. Primeiro álbum de inéditas desde Na Casa dos Profetas, o trabalho, assim como o anterior, apontou os quatro membros da banda como produtores musicais. Embora haja colaborações significativas de Jamba no antecessor e de Kleyton Martins no mais recente, a banda ainda preserva a política de usar o próprio nome ao invés de músicos externos. Sobre as composições, Luiz reiterou o fato de Deco Rodrigues ter influência significativa em várias composições: "O Deco Rodrigues sempre foi um elemento muito importante nas composições do grupo e não é de agora. Canções como "Serás Sempre Deus", "Lembra Senhor", "Me Arrebataste", "Ser Fiel" e muitas outras tem a assinatura dele nas melodias, então nesse quesito não mudou muita coisa. Nesse projeto, por acaso, estamos gravando uma canção de um amigo da Guatemala".

Embora a formação tenha se reduzido, o Trazendo a Arca prefere manter parcerias antigas. A capa do novo álbum foi assinada por David Cerqueira, filho de Denise Cerqueira (in memoriam) e ex-integrante do Toque no Altar. Os elementos gráficos apostam nos mesmos moldes conceituais que caracterizam os outros álbuns do quarteto. Responsável pela Agência Excellence, o cantor é autor de quase todos os projetos gráficos da discografia do Trazendo a Arca. Sendo o primeiro álbum gravado totalmente ao vivo desde Toque no Altar, lançado em 2003, Arcanjo afirma que a banda se sente mais confortável neste formato: "Ao vivo é sempre mais quente. Talvez a partir de agora só gravemos desse jeito. Nós cantamos música congregacional e assim creio que conseguimos passar mais verdade".

Outro destaque acerca do projeto é a participação de Ana Nóbrega. A cantora, ex-integrante do Diante do Trono, chamou o Trazendo a Arca em seu mais recente trabalho, Não me Deixes Desistir (Som Livre, 2015). Da mesma forma, o quarteto chamou Nóbrega para cantar "O Senhor é Bom". "Nós congregamos na mesma Igreja IAUC na Ilha do Governador. Aliás, agora somos vizinhos também! (risos). A Ana e o Dvaldo são pessoas maravilhosas, além de irmãos de ministério somos amigos e vizinhos", ressaltou Arcanjo.

Nesta terça-feira, a banda participou do projeto Sony Music Live, apresentando três músicas do novo álbum com as imagens da gravação. Sobre isso, o vocalista esclarece: "Até os 45 do segundo tempo iríamos gravar só o áudio mesmo, mas aí nesse período o Maurício Soares foi iluminado com a ideia divina do Sony Music Live. Então decidimos juntar os projetos e aproveitar que já iríamos gravar o CD e captar as imagens também". Luiz ainda falou acerca de "Adorai", uma destas três músicas. Sua condução final, aliás, soa parecida com "Senhor e Rei". Ele afirma não ter sido intencional: "Só reparei nisso agora que você falou (risos)".

O formato do Sony Music Live, bem como as mudanças do mercado fonográfico, alterou certos planos do grupo, como a gravação de um documentário em 2013: "Esse documentário musicado foi gravado em Dubai, Israel, Jordânia, Portugal, Londres, Paris e Cuba, além de muitos lugares no Brasil, é claro! Quando começamos a gravá-lo, de fato a idéia era fazer um DVD, mas como tudo no meio fonográfico muda da noite para o dia, agora estamos pensando em lançar esse material exclusivamente na internet".

Luiz brasileiro

Luiz anunciou recentemente, através da Sony Music, que lançará seu segundo álbum em 2016. O primeiro saiu há quase seis anos, de forma independente, mesclando gêneros tipicamente brasileiros e poesias de nível dos músicos que se apresentam no festival Som do Céu. Enquanto o Trazendo a Arca possuía contrato artístico com a Graça Music, a obra chegou a ser distribuída pela gravadora carioca. Desta vez, é a multinacional que estará a cargo das obras solo de Arcanjo. O cantor adiantou alguns detalhes sobre o projeto: "A minha intenção é lançar esse CD no segundo semestre do ano que vem. O repertório está praticamente fechado e já posso adiantar que está muito forte, será um disco de MPB e possívelmente será o Jamba quem vai produzí-lo. Quanto à participações, posso dizer que será um time violento de músicos e cantores amigos (risos)".

Com colaborações de Roberto Azevedo

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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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