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Oficina G3 - Discografia comentada

Tiago Abreu em 27/05/16 3042 visualizações

Duca Tambasco, Jean Carllos e Juninho Afram: Os integrantes mais longevos da banda. Imagem: Divulgação/2007

Em quase trinta anos de carreira, a trajetória da Oficina G3, uma das bandas de maior notoriedade no circuito evangélico brasileiro, é complexa e heterogênea, cheia de altos e baixos. Eles nunca assumiram uma imagem de "revolucionários" da música cristã brasileira porque, na verdade, são uma peça de todo um processo. Estiveram no movimento gospel juntamente com várias bandas, flertaram com gêneros até inadequados para a década, mudaram a formação e, com os anos, ofereceram hits pop que permanecerão para as próximas décadas.

Juninho Afram, guitarrista e líder do grupo, pode não ser um dos maiores letristas do meio evangélico. Mas, ao longo de sua juventude e meia-idade, conseguiu sintetizar o espírito da Oficina G3. E seus versos mostram um grupo que embala narrativas de uma essência "evangelística" que existia nos primeiros anos, um universo evangélico dividido e cheio de falhas, e caminhadas na vida cristã difíceis. Em discos mais alegres e outros fincados no caos, consolidou, junto a Duca Tambasco e Jean Carllos, uma discografia que, querendo ou não, vale a pena conferir.


Ao Vivo (1990): O primeiro trabalho dos paulistas diz muito sobre o circuito evangélico da época. O movimento gospel começava a se desenvolver. Membros da Renascer em Cristo utilizavam casas de shows, como o Dama Xoc, para promoverem bandas e toda uma produção de música que, até os dias de hoje, é negligenciada1. Se tudo era incipiente, não seria diferente com este disco: A obra mostra um grupo que ainda tentava exibir sua identidade. É experimental: Muitos gêneros são explorados, como o blues, o hard rock, o ska e até mesmo o heavy metal. Quem realmente estabelecia a unidade era o vocalista Túlio Regis — compositor majoritário e responsável pelas letras que traziam gírias da juventude ou até mesmo ficção científica para sempre confluir num discurso escancarado de cristianismo. Alguns destes números são surpreendentes, outros se deslocam demais. Apesar disso tudo, o tom desprentensioso pode garantir um certo sabor de originalidade.

Nota: ★★☆☆☆

Ouça: Naves Imperiais, Cante e Viver por Fé


Nada É Tão Novo, Nada É Tão Velho (1993): Após a saída de Túlio Regis e a formação pouco alterada, Juninho Afram passou a modular o grupo para o caráter hard/heavy dos próximos anos. É neste trabalho que uma das principais influências do G3, a norte-americana Stryper, faz-se mais evidente. As guitarras estão em voga, Luciano Manga se afirma como vocalista e as músicas, apesar da produção e gravação que não ajudam, mantém a vibe de Túlio. Isso porque, mesmo tendo deixado a banda, ele ainda é compositor e algumas de suas letras são vistas até no registro posterior. As músicas de Afram apostam em mais riffs e solos de guitarra ("Mais que Vencedores", "Valéria"), mas letras de Túlio, como "Razão", ganham arranjos mais "pesados". É impossível não notar a influência de discos como To Hell with the Devil no som de Nada É Tão Novo, Nada É Tão Velho. Isso contribui para uma sonoridade ímpar na música cristã nacional, mas ainda deixa um ar extremante datado para a época. Em sua versão em CD, lançada no ano seguinte, são inclusas quatro faixas, que seguem o espírito da obra.

Nota: ★★★

Ouça: Mais que Vencedores, Valéria e Razão


Indiferença (1996): Duca Tambasco aparece pela primeira vez na versão em CD do projeto anterior. Mas é aqui, juntamente ao novato Jean Carllos, que participa em todas as músicas. A entrada dos dois acrescentou muito à formação que estava sólida graças à Juninho, Luciano e Walter. Os cinco, na direção de Paulo Anhaia, chegaram ao auge no som oldschool. É curioso porque eles nunca tiveram o humor do Resgate ou a versatilidade que Brother Simion exalava no Katsbarnea e, mesmo assim, Anhaia consegue fazer certa ligação com On the Rock (1995) e Armagedom (1995). E não é para tanto: Paulo entende de metal, e da primeira à décima quinta faixa, não há dúvidas. Juninho Afram nunca esteve tão à vontade, e também brilha como compositor, assinando a maioria das canções completamente sozinho. É dele verdadeiros petardos como "Espelhos Mágicos". É dele baladas suaves como "Your Eyes" e "Novos Céus". E também é dele o solo arrebatador em "Glória Inst.". Os outros não ficam muito atrás e tem seus espaços de destaque, principalmente Luciano Manga, que se despede como vocalista em performances de respeito. Se não é o melhor trabalho da banda, certamente brilha na década de 1990. (leia também a análise)

Nota: ★★★★

Ouça: Todo o álbum


Acústico (1998): PG, o novo vocalista, é "acusado", até os dias de hoje, por fazer a banda abandonar suas influências do metal e embarcar na onda pop da época. Esta crença é absolutamente boba. Primeiro, porque não fazia nenhum sentido, nem para o próprio Oficina, quanto ao círculo musical da época, insistir em um som que ficou preso na década de 1980. Todas as bandas ali próximas ao G3, como o Resgate, estavam se metamorfoseando e amadurecendo. E Acústico, na direção musical do produtor Geraldo Penna (Gera), faz o Oficina se reinventar para os anos seguintes. O repertório é repleto de regravações. Mas as inéditas abrilhantam. "Quem" é a mais triste e melancólica gravada até então, e ainda se sai como uma das músicas mais brilhantes do repertório. PG mostra sua capacidade como compositor em "Autor da Vida". Ele mostra que é além de um substituto à altura de Manga: É um vocalista versátil, que demarca território e é carismático. Entre tantas vozes no grupo, ele pode não ser o melhor, mas deu uma identidade ao som do grupo que, até os dias de hoje, é lembrado. O registro ao vivo, lançado no ano seguinte, veio provar que a função de frontman estava em boas mãos.

Nota: ★★★☆☆

Ouça: Quem, Autor da Vida e Espelhos Mágicos


O Tempo (2000): A banda esteve dez anos sob um contrato da Gospel Records e, na oportunidade de se expandirem do circuito Renascer, aproveitaram a oportunidade em fechar contrato com a então MK Publicitá. Mesmo perdendo todos os direitos autorais dos projetos anteriores, o grupo seguiu em frente, e deu um passo além em um disco pop. Em nenhum momento na carreira o G3 deveu tanto ao sucesso de um disco. O som e as letras são rasgadamente populares e adequadas para shows de arenas. Mas isso não tira, em nenhum momento, o mérito deste trabalho. Muito pelo contrário. Mais entrosados e firmes, a banda soa tão sólida quanto em Indiferença. Há elementos de hard rock e baladas folk, mesmo que o power pop, com todas as letras, predomine. Cordas, metais e, claro, muitas guitarras, constituíram um som envolvente e que empolga do início ao fim. Se na época e até os dias de hoje muitos fãs não façam devida justiça a este disco, ainda permanece como um dos melhores momentos do grupo paulista. (leia também a análise)

Nota: ★★★★☆

Ouça: Todas as músicas, exceto Sempre Mais


Humanos (2002): Oficina G3, desde o Acústico, seguia em muito o que estava fazendo "sucesso". Mas, em nenhum trabalho, eles deixam isso tão evidente. Atentos a bandas como Linkin Park e P.O.D., eles entram na onda do nu metal, embora com outro pé preso no pop de O Tempo. O resultado é um trabalho desleixado, com meia dúzia de músicas que sustentam uma série de baladas insossas. Lançado na virada de 2002 para 2003, o disco dá sinal de responsabilidade em faixas mais pesadas que se concentram no início e escondem uma série de baladas que, em tantos anos, pouco são lembradas ("Eu Sei", "Criação", "Don't Give Up", "Memórias" e outras coisas horríveis). Ainda se salva a gravação mais límpida que nas obras anteriores e o destaque de Juninho Afram como guitarrista. Jean Carllos e Gera também se dão bem nos teclados e loops em grande parte do tempo. É claro que nenhum dos pontos negativos afetaram de fato a banda: 100 mil cópias vendidas em curtíssimo tempo, algumas faixas nas paradas de sucesso e um quarteto (agora, sem o baterista Walter) com planos para o futuro. (leia também a análise)

Nota: ★★☆☆

Ouça: Onde Está?, Apostasia, Te Escolhi, Ele se Foi, Minha Luta, Até Quando? e Desculpas


Além do que os Olhos Podem Ver (2005): Gerado num dos momentos mais conturbados do grupo, Além do que os Olhos Podem Ver é um marco. A saída de PG pôs em xeque os planos de "futuro" mencionados por Duca Tambasco nas entrevistas da época. Brigas e mágoas geraram interrupções na produção iniciada com o ex-vocalista. Por isso, tiveram que refazer um novo trabalho em tempo recorde. E, pela primeira vez, a banda não estava sugando influências de outros sons da época e sim ditando uma nova sonoridade moderna para o rock brasileiro da época. Grande parte do mérito deve-se a Gera, o produtor. Os elementos eletrônicos, junto a complexidade da sonoridade, gera um mix de peso e referências pop. É um disco pesado, quente e ao mesmo tempo acessível. O mesmo pode-se dizer das letras, mais maduras do que nunca. Há "cutucadas" e indiretas ("Mais Alto"), autocrítica ("A Lição"), contratempos e riffs alucinantes ("Réu ou Juiz") e algumas viagens sonoras, entre blues ("O Fim é só o Começo"), rock experimental ("Ver Acontecer") e baladas mais encorpadas e inteligentes ("Amanhã"). Não há dúvidas: Se, em algum momento, o grupo conseguiu cruzar a ponte entre ter referências e ser referência, foi aqui. As composições, creditadas igualmente entre Juninho, Duca e Jean, mostram sinal de maturidade com a adesão de Déio Tambasco nas guitarras e permanência final do baterista Lufe. E, como não deixaria de ser, Juninho cresce como vocalista e se sustenta muito bem. (leia também a análise)

Nota: ★★★★

Ouça: Todo o álbum


Elektracustika (2007): Se a banda conseguiu explorar novos sons sem repetir o que estava sendo feito no mainstream, desta vez o trio aproveitou-se do rock progressivo numa fusão agradável de elementos acústicos e elétricos. As músicas se encaixam muito bem no perfil de uma banda que comemorava 20 anos de carreira: Um som que não apela para uma juventude artificial, tampouco soa envelhecido. As músicas inéditas são o grande ponto e Jean Carllos, como tecladista, é o centro das atenções. As baladas estão dentre as melhores de toda a carreira, como "A Deus" e "Me Faz Ouvir". Elas elevam confissão, introspecção e memórias de tempos difíceis. As regravações podem não agradar tanto quanto suas originais, mas as influências celtas, como na introdução e na subsequente "Além do que os Olhos Podem Ver" garantem boas audições. (leia também a análise)

Nota: ★★★★☆

Ouça: Além do que os Olhos Podem Ver, A Deus, Eu, Lázaro e Me Faz Ouvir


Depois da Guerra (2008): Com os dois últimos discos eles não precisavam provar nada a ninguém. Depois da Guerra, até certo ponto, é uma sequela de Além do que os Olhos Podem Ver. Isso porque se a hipocrisia religiosa era o tema do trabalho anterior, agora eles relacionam esta temática em críticas sobre a divisão e guerras entre evangélicos. Mas o trabalho vai mais fundo e trabalha guerras em um sentido mais amplo. Assim, nos versos, conseguem abranger uma série de questões percorrendo um eixo. Mas o que chama a atenção, de fato, é a sonoridade. Muito mais pesado e intrincado, o trabalho choca desde "Meus Próprios Meios". Quando se aproxima das baladas, perde um pouco do ritmo. A produção de Marcello Pompeu e Heroes Trench oferece brilho e peso às canções da banda, mas dá protagonismo excessivo às guitarras de Afram. Jean Carllos e Duca Tambasco se tornam meros coadjuvantes (o baixo, por exemplo, é pouco audível). Outros aspectos que pesam negativamente acerca da obra é que, novamente, o grupo voltou ao contexto de Humanos e correu atrás de influências; a sonoridade se distancia em muito à progressão feita desde o projeto de 2005 e, mais do que tudo, o repertório é demasiadamente grande e algumas canções soam parecidas. Pela agressividade e impacto imediato na voz de Mauro Henrique, o vocalista estreante, Depois da Guerra é um trabalho de excessos e extremos, e unir tantas arestas é uma tarefa impossível. Seria um registro melhor se fosse mais curto. (leia também a análise)

Nota: ★★★☆☆

Ouça: Meus Próprios Meios, Meus Passos, Depois da Guerra (D.D.G.), Incondicional e Better


Histórias e Bicicletas (Reflexões, Encontros e Esperança) (2013): Em meio à separações conjugais e a morte de Jacky Dantas, esposa de Mauro Henrique, o grupo passou por um de seus momentos mais difíceis e conseguiu exprimir seus sentimentos nas composições. O álbum, musicalmente falando, é mais maduro que Depois da Guerra. Tenicamente, também. Gravado no RAK Studios em Londres, o som é orgânico, claro e bem definido. O repertório tende entre baladas dramáticas de qualidade ("Descanso" e "Lágrimas") e canções mais pesadas ("Água Viva"). Mesmo com mais baladas em comparação aos registros anteriores, o disco ainda é pesado para o contexto que viviam. No fim das contas, o projeto consegue fornecer uma das faces menos lembradas do G3: As dores e angústias de homens de meia-idade que observam o processo da vida humana: Nascimento, crescimento e morte. Vale lembrar que é o primeiro e único a trazer Alexandre Aposan como membro oficial. (leia também a análise)

Nota: ★★★★☆

Ouça: Água Viva, Não Ser, Descanso, Sou Eu e Lágrimas


1 Os integrantes do grupo eram originalmente membros da Igreja Cristo Salva, onde a banda foi fundada em 1987. No entanto, os lançamentos dos primeiros projetos foram feitos em parceria com a Gospel Records, de Estevam Hernandes e Antônio Abud.

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Tiago Abreu

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), escreveu para o Super Gospel entre 2011 a 2019. É autor de várias resenhas críticas, artigos, notícias e entrevistas publicadas no portal, incluindo temas de atualidade e historiografia musical.


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